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II WORKDHOP DO NAPI PARANÁ FAZ CIÊNCIA

O “Relatório Temático sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos”, lançado nesta sexta-feira (1º) na Cidade Universitária de São Paulo, tem como um dos coordenadores Mario Luis Orsi, biólogo e professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas (PPGCB) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

O documento é uma iniciativa da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e aponta os impactos provocados, além das medidas recomendadas para enfrentar a ameaça destas espécies. O estudo inédito demonstra que as espécies invasoras provocam prejuízos da ordem de U$S 3 bilhões à economia do País.

O comércio de animais de estimação e de plantas ornamentais e hortícolas representa a principal via de introdução destas espécies. O fenômeno ocorre em todo território nacional e preocupa pesquisadores devido aos problemas decorrentes à biodiversidade, ao desenvolvimento sustentável e à saúde.

O relatório foi produzido por 73 autores líderes, 12 colaboradores e 15 revisores de instituições de pesquisa e órgãos públicos, representantes do terceiro setor e profissionais autônomos de todas as regiões do país, em um esforço que buscou conciliar gênero, raça e expertise.

Além de Mário Orsi, o estudo é coordenado juntamente com as pesquisadoras Michele de Sá Dechoum, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e Andrea de Oliveira Ribeiro Junqueira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com Mário, foram três anos de dedicação ao relatório com foco na produção de um grande diagnóstico sobre o problema das espécies invasoras. O objetivo é sensibilizar tomadores de decisão para soluções concretas. Entre as espécies conhecidas citadas no relatório estão javali, mexilhão-dourado, sagui, tucunaré, búfalo e mamona. As Espécies Exóticas Invasoras (EEIs) presentes no Brasil se reproduzem, proliferam e se dispersam para novas áreas, onde na maioria das vezes ameaçam as espécies nativas e afetam o equilíbrio dos ecossistemas.

Segundo o estudo, existem 476 espécies exóticas invasoras registradas no Brasil, das quais 268 animais e 208 plantas e algas, em sua maioria nativas da África, da Europa e do Sudeste da Ásia.

Áreas urbanas são vulneráveis a espécies exóticas invasoras devido ao grande tráfego de pessoas, commodities e mercadorias via portos e aeroportos, revela o relatório, acrescentando a gravidade da extensão territorial do problema e de seus efeitos ambientais, sociais e econômicos.

IMPACTOS – Ao longo de 35 anos (1984 a 2019), o prejuízo mínimo estimado em razão dos impactos ocasionados por apenas 16 espécies exóticas invasoras variou de US$ 77 bilhões a US$ 105 bilhões – uma média anual de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões.

Dentre elas, estão principalmente pragas agrícolas (US$ 28 bilhões) e vetores de doenças (US$ 11 bilhões). Os custos são atrelados a perdas de produção e horas de trabalho, internações hospitalares e interferência na indústria de turismo.

Outro aspecto citado são as invasões biológicas por mosquitos como os do gênero Aedes, associados aos chamados arbovírus, que têm gerado graves consequências à saúde pública, em virtude de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana.

O Brasil é signatário de convenções internacionais acerca do tema e tem o conhecimento técnico e uma estrutura legal para ampliar a prevenção e o controle de invasões biológicas. Uma recomendação para a boa gestão e execução de ações de manejo dos invasores biológicos é a publicação de listas de EEIs. O Brasil não tem uma lista oficial, mas a base de dados nacional de espécies exóticas invasoras gerenciada pelo Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, sediado em Florianópolis (SC), tem sido uma fonte de referência.

Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Distrito Federal e Bahia já instituíram suas listas oficiais. “As listas são fundamentais e sem elas fica difícil e quase ineficaz qualquer planejamento de ações de manejo”, diz Orsi.

Dentre as EEIs, há animais e plantas considerados “carismáticos”, como cães e gatos domésticos, árvores ornamentais e algumas espécies de tartaruga e de primatas. De acordo com o professor da UEL, como as invasões biológicas são processos de baixa previsibilidade e alto risco, uma resposta rápida aumenta a chance de sucesso para prevenir e mitigar suas consequências. “A inação, assim como a demora na ação, leva ao agravamento de invasões biológicas e de impactos negativos com o passar do tempo”, detalha o documento.

Pesquisadores da UFPR realizaram a descrição taxonômica de 𝑃𝑙𝑒𝑟𝑜𝑚𝑎 𝑐𝑢𝑟𝑢𝑐𝑢𝑡𝑢𝑒𝑛𝑠𝑒, espécie encontrada apenas no Parque Estadual da Serra do Mar

Ofinal do verão é invadido por tons intensos de rosa e roxo em diversas cidades do Brasil graças à florada das quaresmeiras e dos manacás-da-serra, espécies de plantas muito presentes na arborização de centros urbanos. Inclusive o nome popular da quaresmeira foi dado devido às flores desabrocharem nesta época do ano, que antecede a Páscoa e sucede ao Carnaval. 

De copa arredondada, com folhas verde-escuras e carregadas com flores roxas ou rosadas, essas árvores apresentam um porte pequeno a médio, chegando até 12 metros de altura, e pertencem a espécies do gênero Pleroma. Apesar de nativas de florestas úmidas, elas atualmente podem ser encontradas em todo o país, devido à popularização do cultivo e a sua capacidade de tolerância à poluição.  

Em setembro de 2023, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Botânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR) descreveram uma nova espécie de Pleroma, encontrada no Núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar, localizado, em parte, no município de São Paulo. 

O exemplar foi coletado em fevereiro de 2012 e o pesquisador Fabrício Schmitz Meyer, atualmente em pós-doutorado na UFPR e especialista nesse gênero de planta, levou mais de dez anos para estudá-lo detalhadamente e chegar à conclusão que se tratava de uma nova espécie. A descoberta foi publicada na revista de taxonomia botânica Phytotaxa 

Em homenagem ao Núcleo Curucutu, do Parque Estadual da Serra do Mar, único local de ocorrência da espécie conhecido até o momento, a planta foi batizada de Pleroma curucutuense.

“Ela é uma parente das quaresmeiras e manacás, mas ao contrário das mais conhecidas, possui um porte menor, as flores reunidas em inflorescências e as pétalas são roxas, apenas com a porção basal branca, ou seja, não mudam de brancas para lilases durante a abertura”, explica Meyer à Ciência UFPR

O fato de a espécie ser endêmica apenas da região do parque pode significar que há risco de extinção, devido a sua distribuição restrita. Os pesquisadores acreditam não ser provável que exemplares da planta sejam encontrados fora desta área, mas que é possível que ela esteja amplamente distribuída dentro do próprio núcleo em que foi coletada.  

“A espécie só foi apanhada em campos de altitude próximos da sede do parque, mas estas formações se estendem mais a leste e a sul nas cristas mais altas desta porção da Serra do Mar. Assim, suspeitamos que existam mais populações da espécie em áreas insuficientemente amostradas dentro do próprio parque e, quanto maiores forem as populações, menos risco ela corre”, avalia o autor do artigo. 

Apesar de ter sido descrita só agora, a espécie foi coletada pela primeira vez em 1996 e ficou depositada na coleção biológica da UFPR, chamada herbário, por todo esse tempo.

Herbários são imprescindíveis para documentação de espécies
  Fotos: Marcos Solivan

“Isso é comum acontecer, pois a pessoa que coletou antes não conseguiu identificar como uma nova espécie, já que para estudar a flora, dependemos de amostras depositadas no herbário. E este é um trabalho geralmente realizado em longo prazo pois passa por diversas etapas”, conta o professor do Departamento de Botânica da UFPR e supervisor da pesquisa, Renato Goldenberg.  

Semelhanças com outras espécies do gênero 

Pleroma curucutuense é morfologicamente parecida com Pleroma caissara, espécie descrita pelos mesmos autores em 2014. As principais diferenças dizem respeito ao porte reduzido, folhas menores com apenas três nervuras, flores e peças florais menores.

“Elas também ocorrem em habitats diferentes. P. curucutuense ocorre acima de 750 metros, em campos de altitude, enquanto P. caissara ocorre entre dez e 400 metros de altitude, próximo à costa, na restinga e na Mata Atlântica de várzea e submontana”, revela Meyer. 

Ainda que suas parentes, quaresmeiras e manacás-da-serra, sejam comuns em diversas áreas do território brasileiro, não se sabe se a nova espécie descrita poderia ser cultivada em outras regiões, já que essa situação só poderá ser constatada após testes. Contudo, o padrão é que as quaresmeiras são plantas de fácil cultivo a partir de sementes e possuem enorme potencial ornamental. 

Uma das principais regiões do país ainda tem flora desconhecida    

Embora cada novo táxon (agrupamento de organismos biológicos construído com base em uma definição) descoberto represente um incremento do conhecimento sobre a biodiversidade, o fato de encontrar uma espécie inédita próxima a grandes núcleos urbanos é um dos aspectos considerados mais interessante da pesquisa. 

“Chama atenção que uma espécie, até então desconhecida, seja reconhecida como nova no município de São Paulo, que inclui uma das maiores áreas urbanas do mundo e a maior da América do Sul, comportando milhões de pessoas. É impressionante que uma cidade desse porte ainda tenha áreas naturais com flora não totalmente conhecida”, assegura Goldenberg. 

O Parque Estadual da Serra do Mar abrange parte de 23 municípios, indo da divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro até Itariri, no sul do estado paulista e cobrindo toda a região serrana e arredores da Serra do Mar. A área de preservação possui uma vegetação bastante rica, com pelo menos 512 espécies nativas já inventariadas em seus campos de altitude. 

O Núcleo Curucutu, local onde P. curucutuense foi coletada, está localizado entre a região metropolitana da baixada santista e a grande São Paulo. 


Na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o ano letivo inicia com muita ciência. Projetos de desenvolvimento de novas bebidas e de materiais cerâmicos, estudo do efeito das exportações da agropecuária brasileira na emissão dos gases de efeito estufa, desenvolvimento de protocolos para controle de degradação de sítios arqueológicos visitados turisticamente e mapeamento de estratégias utilizadas por professores de língua indígena receberam um incentivo a mais no final de 2023. Os cinco projetos foram contemplados na Chamada Universal 10/2023 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O nome já indica: a Chamada Universal é voltada para projetos de qualquer área do conhecimento. Neste ano, o investimento total previsto é de R$ 300 milhões. Das 9757 propostas recebidas pelo CNPq, 2751 foram aprovadas. Das propostas da UEPG contempladas na Chamada, quatro pertencem à Faixa A, para grupos emergentes, e uma pertence à Faixa B, para grupos consolidados. Os valores, que vão de R$ 35 mil a R$ 165 mil e somam R$ 359 mil, podem ser aplicados em itens de custeio, capital e bolsas de pesquisa nas modalidades Iniciação Científica (IC), Iniciação Tecnológica Industrial (ITI), Desenvolvimento Tecnológico Industrial (DTI) e Apoio Técnico (AT).

Reconhecimento

Para a professora Augusta Pelinski Raiher, cujo projeto sobre o impacto das exportações da agropecuária brasileira na emissão de gases de efeito estufa foi contemplado na Faixa B com R$ 35 mil, esse tipo de financiamento é importante por custear a pesquisa e também por significar um reconhecimento da relevância dos estudos desenvolvidos. “Mais de 90% de toda pesquisa que se faz no Brasil é feita nas universidades. Então ser contemplado com esses recursos é muito importante, para ajudar com equipamentos e softwares necessários para desenvolver o projeto; para traduzir os artigos gerados a partir da pesquisa; e também para poder divulgar os resultados em congressos e eventos”, enumera. “Nossa aprovação no edital significa que o que estamos pesquisando é algo que a sociedade entende como importante e que estamos no caminho certo”.

“Os projetos financiados por meio de editais do CNPq passam por um processo de seleção bem rigoroso, e que é baseado no mérito científico e técnico. São escolhidos somente os projetos de alta qualidade e relevância”, explica Jasmine Moreira, professora do curso de Turismo da UEPG e coordenadora de um projeto contemplado com R$ 49,5 mil. O grupo, do qual também participam os pesquisadores Henrique Simão Pontes, Laís Luana Massuqueto e o professor Robert Burns, da Universidade de West Virginia, nos Estados Unidos, estuda a degradação de sítios arqueológicos que são visitados turisticamente. O objetivo é elaborar um protocolo para uso público, com foco no Parque Nacional dos Campos Gerais. “A degradação de sítios arqueológicos vem ocorrendo cada vez mais e com mais velocidade e as ações para proteger esse patrimônio devem ser urgentes. A conscientização dos visitantes sobre os impactos negativos e a adoção de comportamentos responsáveis são fundamentais para a preservação desses sítios para as gerações futuras”, destaca a professora Jasmine. Apesar do impacto negativo de danos a esse patrimônio arqueológico, ela enfatiza que a visitação turística com qualidade ajuda a conectar o público com o passado, criar memórias mais duradouras e, consequentemente, valorizar o patrimônio.

Pesquisa e Inovação

“As crises climáticas e energéticas contínuas e crescentes e os regulamentos mais rigorosos sobre o uso de combustíveis fósseis, em face da crescente desigualdade global e preocupações ambientais, estão levando à necessidade de uma mudança para o uso de fontes de energia renováveis e a utilização mais eficiente de combustíveis fósseis”, explica a professora Adriana Chinelatto, do curso de Engenharia de Materiais, que teve um projeto sobre o desenvolvimento de materiais sustentáveis contemplado na Chamada do CNPq com R$ 60 mil. Há uma preocupação bastante atual com o desenvolvimento de novas tecnologias para obter energia com alta eficiência e baixa agressividade ao meio ambiente, visto que a geração de energia por fontes não-renováveis promove o esgotamento de recursos naturais e a deterioração das condições ambientais.

Uma dessas tecnologias é a de células a combustível de eletrólito sólido, que convertem energia química em energia elétrica. “A geração de energia elétrica nas células a combustível acontece sem a necessidade de combustão, com maior eficiência, baixo nível de ruído e menor emissão de poluentes. Como a célula a combustível apenas catalisa as reações eletroquímicas, o processo de geração ocorre de maneira contínua enquanto houver combustíveis disponíveis para suprirem as reações químicas e, se for utilizado o hidrogênio como combustível, o subproduto gerado será apenas água”, explica a professora. Essas células são fabricadas com materiais cerâmicos, e o objetivo do projeto é desenvolver novos materiais, com estrutura tipo Perovskitas, para torná-las mais eficientes e economicamente viáveis.

Educação

“Existem terras indígenas em que as pessoas basicamente falam português; não falam mais a língua indígena. Em outras, as pessoas falam as duas línguas, o português e a língua indígena. E existem terras indígenas em que grande parte da população nem fala português”. A constatação da professora Letícia Fraga, do Departamento de Estudos da Linguagem da UEPG, deixa clara a importância e a diversidade de uma linha de estudo que ela segue há mais de uma década: o ensino de línguas indígenas, em especial o Guarani e o Kaingang, em terras indígenas paranaenses. O projeto foi contemplado na Chamada Universal com R$ 49,5 mil.

O objetivo do projeto, segundo a professora, é mapear as diferentes estratégias que os professores usam para para ensinar essas línguas na escola, como a produção de materiais didáticos específicos, vídeos, exercícios e dicionários. Além disso, o grupo propõe formação continuada para capacitar e trocar experiência entre os docentes de terras indígenas.

Energia renovada

O projeto que teve a maior verba aprovada é da Engenharia de Alimentos, coordenado pelo professor Alessandro Nogueira. “O projeto desenvolve novas bebidas a partir de maçã: tanto sem álcool (sucos), quanto bebidas alcoólicas”, explica. São R$ 165 mil, sendo R$ 130 mil para equipamentos e R$ 35 mil para custeio, em especial de consumíveis para cromatografia líquida, um processo de separação de componentes em uma mistura. “Para nós, é uma injeção de ânimo”.  Com os novos equipamentos e material de consumo, será possível desenvolver um trabalho de ponta.

“A aprovação de projetos como esses é muito boa para a Universidade, em geral”, comemora Alessandro. “A soma deste montante aplicado na instituição acaba beneficiando a Universidade como um todo, em especial na pesquisa científica desenvolvida nos programas de pós-graduação”. Com o reconhecimento do trabalho e o aporte financeiro, os pesquisadores têm ânimo renovado para fazer ciência, nas mais diversas áreas de conhecimento.

Texto e fotos: Aline Jasper

Até que ponto a confiança em governos modera o medo da Covid-19 e a empatia da população? É o que o artigo publicado no periódico Communications Psychology, do grupo Nature, busca responder. Entre os 34 países investigados, o Brasil desponta como o que tem mais empatia pelo próximo. Em paralelo, a população é uma das que mais sentiu medo da Covid-19 e com menos confiança no governo à época da pandemia. A pesquisa brasileira foi conduzida pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O brasileiro é o povo mais empático das pessoas analisadas. O artigo revela uma pontuação de 6,00, superior a países como Portugal, México e Chipre. Quando o assunto era medo da Covid-19, o Brasil atingiu 2,97 pontos, número atrás apenas do Vietnã (3,04) e Filipinas (3,31). A pesquisa com brasileiros ficou por conta da UEPG, por meio da professora Milene Zanoni, do Departamento de Saúde Pública e chefe do Ambulatório de Saúde Integrativa; com coordenação dos pesquisadores do projeto ‘Abordagens transculturais e multidimensionais do impacto da Covid-19 – Brasil’, da UFPR.

Para Milene, há diversas razões que podem ter causado medo e desconfiança da população. Uma delas foi a falta de transparência, comunicação inconsistente e desinformação por parte do Governo Federal. “Outro ponto crucial foi a gestão inadequada da crise sociossanitária na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, como a ausência de políticas públicas consistentes para o enfrentamento da Covid-19, o número catastrófico de casos e mortes, atrasos nas respostas do poder público e falta de recursos adequados”, explica.

Os pesquisadores cruzaram dados coletados em 2021 e procuraram esclarecer as razões pelas quais as pessoas cumprem (ou não) atividades cooperativas em grande escala. O estudo investiga os motivos implícitos ao apoio aos comportamentos preventivos da Covid-19, numa amostra de 12.758 pessoas. “Para muitas pessoas, a perda de entes queridos, o próprio adoecimento ou o impacto econômico da pandemia, aumentou o medo e a desconfiança em relação à capacidade do governo de proteger a população”, aponta a professora, que ressalta a polarização política e as disputas partidárias em torno das medidas de combate à pandemia. “Isso pode ter levado a uma percepção de que o governo estava mais preocupado com interesses políticos do que com a saúde e segurança da população”.

O artigo menciona que, quando há pouca confiança no governo, os indivíduos duvidam se o cumprimento individual das medidas de saúde pública produzem algum benefício. O estudo mostra que o Brasil teve 1,62 pontos de confiança no governo (entre 1 a 5 pontos), índice considerado baixo. Dos mais de trinta países pesquisados, os brasileiros só não desconfiaram mais do que México (1,59), Polônia (1,57) e Honduras (1,52).

É difícil prever com certeza como os níveis de desconfiança e medo mudaram agora que a pandemia acabou, conforme explica Milene. “Mas é possível pensarmos na hipótese de que possam ter diminuído à medida que a situação de saúde pública melhorou e as restrições relacionadas à pandemia estão mais relaxadas”. A professora levanta a possibilidade de que, com a disseminação controlada do vírus, o avanço da vacinação e as restrições suspensas, é provável que o medo direto da Covid-19 tenha diminuído. “É importante destacar que níveis de desconfiança e medo podem persistir mesmo após o fim da pandemia, especialmente em casos em contextos socioambientais e econômicos vulneráveis, relacionado a pobreza, fome e condições indignas”.

Campeão de empatia

Apesar dos sentimentos mais ao lado negativo, o brasileiro é empático em níveis maiores do que os outros 33 países analisados. “A resiliência individual e comunitária é estimulada em tempos de crise e adversidade, o que é algo intrínseco em todas as pessoas”, acrescenta a docente. Evolutivamente, comunidades mais empáticas e com maior apoio mútuo sempre foram as que sobreviverem, resistiram e seguiram em frente, conforme explica Milene. “Isso é o que nos compõe como civilização. A pandemia levou as pessoas, em especial mulheres, pobres, favelados, negras, indígenas, PCDs, LGBTQIAPN+ e pessoas idosas ao extremo. A iminência da morte e da crise emana algo muito profundo e intenso no ser humano em favor da vida”, completa.

O artigo completo pode ser visto na íntegra aqui.

Texto: Jéssica Natal | Fotos: Luciane Navarro

Aparelho desenvolvido por uma parceria entre físicos e bioquímicos é mais um passo no domínio da tecnologia para testes clínicos seguros e baratos

A pandemia de Covid-19 pegou o mundo de surpresa, a doença se espalhava rapidamente enquanto autoridades e cientistas buscavam meios de combater o vírus. No Brasil, até o fechamento dessa reportagem, a doença causou, segundo números oficiais, mais de 700 mil óbitos. Apesar do cenário ter mudado com a vacinação, o período de emergência mobilizou pesquisadores para o desenvolvimento de novas ferramentas para combater o vírus, dentre elas os modos de testagem foram essenciais.

O que são biossensores?
Os biossensores podem ser entendidos como um sistema de três elementos: um biorreceptor— que pode ser um antígeno, um anticorpo, uma enzima e DNA/RNA, por exemplo —, um transdutor que converte um sinal bioquímico em um sinal mensurável e uma unidade de processamento de sinal. Quando o material de análise interage com o biorreceptor, um sinal é gerado, podendo ser representado de diferentes formas. Um dos exemplos mais famosos se trata do sensor de glicose oxidase, desenvolvido em 1962 pelos pesquisadores Clark e Lyons, que conseguia detectar a presença de glicose no sangue. Desde então, a utilização de biossensores se expandiu, sendo utilizados desde pequenas detecções de moléculas em explosivos, pesticidas e herbicidas, até a quantificação de materiais de análise médica, como pequenas proteínas, vírus e patógenos bacterianos.

Na UFPR dois grupos de cientistas se uniram na busca por um meio de testagem mais eficaz e barato, o que resultou na criação de um biossensor ótico capaz de identificar se a pessoa está infectada com o vírus. O aparelho foi desenvolvido em parceria entre o Grupo de Pesquisa de Dispositivos Nanoestruturados (DiNE), do Departamento de Física, e o Núcleo de Fixação Biológica de Nitrogênio (NFN), do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular, sendo capaz de identificar pequenas quantidades de anticorpos mostrando alta sensibilidade e reduzido risco de falsos-negativos.

O aparelho experimental detecta apenas o anticorpo, o que impede seu uso depois da vacinação em massa, mas já está sendo adaptado para detectar o vírus diretamente. Segundo o professor Emanuel Maltempi, um dos pesquisadores que atua na patente, o biossensor poderia ter sido uma vantagem para testagens mais práticas e rápidas para detectar o vírus da Covid-19 durante a pandemia. “Seria uma técnica muito barata que poderia ser usada até no consultório do médico com uma gota de sangue do dedo”, afirma.

Entenda o funcionamento do biossensor

O biossensor é formado camada à camada e tem como base o polímero semicondutor F8T2, quando este tipo de material é submetido a uma fonte de luz, ele emite um padrão também luminoso conhecido pelos cientistas, uma característica chamada fotoluminiscência. A segunda camada é formada por um biorreceptor, no caso um antígeno que é parte da proteína que forma o spike, ou espinho, que o vírus causador da Covid-19 utiliza para se ligar à celula e introduzir nela seu material genético, chamada de Domínio de Ligação de Receptores (RBD na sigla em inglês). Recebe ainda uma camada de um bloqueador de superfície, chamado BSA, e, por fim, como uma última camada, recebe o material colhido do paciente para a realização do teste.

Pesquisadora Maiara de Jesus Bassi trabalha na deposição do polímero semicondutor F8T2 no biossensor

Quando infectado, o corpo humano produz um anticorpo que se liga ao RBD do vírus para inativar essa proteína e impedir que o vírus entre em nossas células. É este processo que será reproduzido na superfície do biossensor quando é feito o exame com o material coletado de um paciente com covid-19.

A pesquisadora Maiara de Jesus Bassi, que participou do desenvolvimento do aparelho, explica que quando acontece a ligação desse anticorpo ao RBD presente no sensor ocorre uma mudança detectável no padrão luminoso emitido pelo polímero F8T2, indicando que o paciente possui os anticorpos e portanto está infectado com o vírus. O papel do BSA é garantir que apenas esse tipo de ligação ocorra. A pesquisadora explica que a detecção ocorre por meio de um aparelho de alta precisão no laboratório, mas que no caso da fabricação de testes em massa este seria um equipamento portátil.

“O espectro de fotoluminescência do F8T2 é único e muito característico. Quando colocamos todas essas camadas em cima do F8T2 o espectro é alterado. Isso significou, depois de muitos estudos, que essa alteração era devido a ligação RBD/Anti-RBD. Ou seja, quando detectamos essa ligação significa que estamos conseguindo detectar soros humanos que tinham ou não anticorpos da covid-19”, resume a pesquisadora.

A eficácia do biossensor foi testada com o acervo de soros humanos do NFN e foi possível identificar com segurança quais continham ou não anticorpos contra o vírus da Covid-19. Para Bassi, “essa tecnologia surgiu como um princípio alternativo de detecção poderosa e versátil, com o potencial para superar muitas das limitações dos métodos tradicionais, principalmente devido à velocidade de análise e simplicidade de operação”.

Possibilidade de produção em massa é uma das vantagens do novo aparelho

Uma das principais vantagens da inovação é a simplicidade do processo de produção que consiste basicamente na deposição das camadas dos materiais em um substrato. Para a produção em massa esse processo pode acontecer com a utilização de uma impressora, produzindo rapidamente uma grande quantidade de testes. Além disso, o produto final poderia ser pequeno, utilizando pouca matéria-prima e gerando poucos resíduos.

A produção das matérias-primas também já é dominada. A pesquisadora Maritza Araújo Todo Bom, do NFN, explica que para produzir o RBD em grande quantidade é extraída a parte específica do DNA do vírus que produz essa proteína. Esse material é inserido em um plasmídeo, molécula circular de DNA que consegue se replicar de forma independente dentro de micro-organismos.

Os pesquisadores então inoculam bactérias com esses plasmídeos, que passam a se reproduzir junto com elas, gerando uma grande quantidade de RBD. Depois as bactérias são rompidas e o material coletado para a utilização no biossensor.

Tecnologia poderá ser adaptada para a detecção de outras doenças

Os pesquisadores explicam que o sucesso do novo dispositivo abre caminho para que ele seja adaptado para detecção de outras infecções. Segundo Roman, “o biossensor apresentou alta sensibilidade, boa estabilidade e curto tempo de resposta, proporcionando uma perspectiva de sua aplicação para a detecção de outras doenças infecciosas causadas por uma ampla gama de vírus”. Outros projetos similares que utilizam a mesma tecnologia estão sendo desenvolvidos com foco, além das doenças virais, em doenças bacterianas e outros tipos de anticorpos.

A pesquisa também destacou o potencial de descobertas que podem surgir da interdisciplinaridade entre a área da física e da saúde “Ela nos permitiu ter uma visão mais ampla da ciência para muito além da nossa especialidade. Além disso, este trabalho chegou à sua excelência por causa da dedicação de ambas as partes em entender o outro lado e desenvolver juntos algo inovador”, ressalta Bassi.

Partindo do princípio de que todo conhecimento produzido na universidade deve, de algum modo, retornar à sociedade, a Agência de Inovação Tecnológica da Universidade Estadual de Londrina (Aintec) lançou, recentemente, a plataforma online Vitrine Tecnológica. Com 11 categorias que transitam por diferentes campos de atuação, como Engenharia, Saúde Humana e Biotecnologia, o site reúne
as principais produções acadêmicas disponíveis para licenciamento exclusivo ou não pelo setor empresarial, industrial e por outras instituições públicas.

No site da Vitrine, os interessados têm acesso a uma ficha técnica minuciosa dos trabalhos em andamento. Além de dados dos autores, também é possível saber quais formas de colaboração são esperadas no estudo. Atendendo à Resolução 061/2021, que determina uma Política de Inovação Institucional, a transferência de know-how, patentes, desenhos industriais e expertise técnica foi desburocratizada, acelerando os acordos de licenciamento, cessão e parcerias estratégicas.

Uma das tecnologias disponíveis é o cateter urinário revestido com nanopartículas de prata biossintetizadas. Elaborado na Divisão de Saúde Humana, este mecanismo promete dar celeridade à logística do ambiente médico-hospitalar. Favorecendo o emprego de materiais menos poluentes, a obra do estudante de pós-graduação Gustavo Saikawa em conjunto com docentes da UEL revoluciona o mercado ao viabilizar uma solução criativa aos problemas atuais de contaminação.

Já o sistema construtivo leve de alto desempenho para vedação vertical, apresentado por Berenice Carbonari e Reginaldo Manzano, ambos professores da instituição, inova no meio da engenharia pela redução de custos. Através de uma visão simplificada, o tempo gasto no procedimento foi otimizado para o reaproveitamento das peças. Assim, a utilização de madeira de reflorestamento e de placas de cimento leves acarretou em vantagens significativas à construção de habitações sustentáveis.

Reprodução.

Além disso, uma importante tecnologia advinda da Biotecnologia difunde os benefícios do uso alternativo de modelos animais em experimentações laboratoriais. Por meio de amebócitos de larvas de inseto, pirogênios microbianos são detectados com maior facilidade e rapidez. No futuro, a possibilidade de aplicação em forma de kits de detecção e a prática dos conceitos de 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar) entusiasmam os clientes dependentes desse serviço.

Por fim, a iniciativa de Renata Kobayashi, Gerson Nakazato, Alana Corrêa, Luciano Panagio, Marcelly Gonçalves, Ricardo Almeida e Tatiany Nunes supre a necessidade dos testes habituais de pirogênios. Mediante à proibição de interferência na temperatura corporal dos animais, o novo método é validado para a manutenção da segurança e da saúde pública.

A criação da Vitrine Tecnológica da UEL consiste em fomentar a troca de conhecimentos entre o meio acadêmico e setor empresarial. Ao promover uma cultura empreendedora e engajada, a Aintec incentiva os estudantes a buscar soluções criativas e impactantes para desafios reais do mercado.

Ao lado de outros quatro membros com endereço no Brasil, Fernanda Avelar Santos ingressou na turma de 2024 do Explorers Club, sociedade criada nos EUA que se propõe a destacar gente que atua pelo avanço científico, exploratório e de conservação de recursos

A doutora em Geologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atual pesquisadora na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Fernanda Avelar Santos, foi uma das cientistas indicadas para compor a turma de 2024 do Explorers Club, uma sociedade com sede nos Estados Unidos criada em 1904.

Perfil de Fernanda Santos no Explorers Club. Imagem: www.50.explorers.org/Reprodução

Pela sua descrição, o clube funciona como uma entidade multidisciplinar que se propõe a apoiar e destacar pessoas envolvidas em avanços científicos, exploratórios e de conservação de recursos no mundo todo. Os integrantes do clube precisam ser indicados por outros integrantes. No caso, Fernanda foi indicada por Joe Grabowski, biólogo, mergulhador e comunicador de ciência da turma de 2018.

Fernanda entrou no grupo dos “alquimistas”, que o clube descreve como “exploradores que abraçam a criatividade e nos inspiram a ver o mundo sob novas perspectivas; sua abordagem de exploração é uma mistura de diversas paisagens, táticas excêntricas e coragem inabalável”. No total, são cinco grupos de exploradores.

“Rochas plásticas”

Em seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geologia da UFPR, concluído no ano passado, Fernanda estudou aglomerados de rochas e plástico derretido que foram encontradas na Ilha da Trindade, uma localidade pouco habitada que pertence ao Espírito Santo.

A descoberta foi noticiada na revista Ciência UFPR em janeiro de 2023. A partir do veículo de ciência da UFPR, foi repercutida na mídia de mais de 60 países.

Atualmente, Fernanda faz pós-doutorado sobre rochas de plástico e microplástico nas ilhas oceânicas brasileiras na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp, em Presidente Prudente (SP).

Além de Fernanda, fazem parte da nova turma do Explorers Club outros quatro membros que moram no Brasil: Lvcas Fias, designer naturalista; Luigi Cani, paraquedista; Luiz Rocha, ictiólogo; e Ângelo Rabelo, policial ambiental aposentado que dirige o Instituto Homem Pantaneiro (IHP).

A Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), por meio da professora Marilei Casturina Mendes Sandri, em colaboração com as colegas Cássia Gonçalves Magalhães, Suellen Aparecida Alves e Célia Regina Carubelli, foi contemplada com um prêmio no valor de U$5.000,00, obtido por meio de um edital promovido pela instituição estadunidense Beyond Benign, com o apoio da Reitoria da UEPG e do Departamento de Química.

A Beyond Benign é uma organização fundada por John Warner e Amy Cannon, que desenvolve e distribui recursos educacionais ligados à Química Verde e à Ciência Sustentável, que empodera educadores, estudantes e a comunidade em geral para que a sustentabilidade torne-se possível por meio da Química. Com mais de 150 universidades filiadas ao redor do mundo, o prêmio foi destinado a apenas dez, a UEPG entre elas.

Pesquisa, ensino e extensão

A professora Marilei, uma das coordenadoras do projeto ‘Versus: Química Verde e Sustentável na UEPG’, que foi contemplado pelo prêmio, conta que este é um projeto integrado que reúne pesquisa, ensino e extensão. “Nós visamos fazer ações aqui dentro da Universidade, promover o ensino da química verde aqui dentro. Mas como tem a perspectiva da extensão, nós queremos levar isso para a comunidade e esses alunos estão fazendo justamente esse papel”. 

Os oito bolsistas que integram a equipe de pesquisa vieram por meio do edital do programa “Universidade Sem Fronteiras”, e a partir da vinda desse novo recurso, poderão ter acesso a um laboratório com novas vidrarias e novos reagentes: equipamentos necessários para reduzir os resíduos produzidos nos experimentos e otimizar o trabalho dos 18 cursos que utilizam a estrutura do laboratório de Química Orgânica da UEPG. 

Fernanda Ossovski Podolan da Rosa traz uma visão diferenciada para o grupo, uma vez que é acadêmica de Farmácia. Fernanda acredita que é possível disseminar as práticas sustentáveis por todos os cursos da Universidade. “A gente tem acesso a artigos e estudos em que a gente vê que a química farmacêutica é a que mais gera resíduo, mas por outro lado, também é uma das que mais trabalha para reduzir os resíduos”.

Química Verde

O conceito de Química Verde surgiu na década de 90, “como uma resposta aos problemas ambientais causados pela química convencional”, explica Marilei. “Nós sabemos que a química contribuiu e contribui muitíssimo para o avanço de vários segmentos da sociedade. Mas ao decorrer disso, ela também deixou muitos rastros de poluição”.

A professora Marilei, suas colegas de projeto e os oito estudantes imersos no laboratório de Química Orgânica acreditam na possibilidade de se fazer uma química ambientalmente mais benigna, eticamente responsável com as questões ambientais e com a saúde humana. 

A equipe de professoras à frente do projeto vislumbra transformações positivas e impactantes para seus alunos, para os laboratórios e para as práticas dentro da UEPG, uma vez que a vidraria a ser adquirida – que é mais cara que as demais – irá possibilitar os trabalhos em microescala, utilizando cada vez menos reagentes e diminuindo drasticamente a geração de resíduos. 

Célia Regina Carubelli, responsável pelo laboratório de resíduos químicos da UEPG, enfatiza: “na geração de resíduos, sempre a gente tenta minimizar, reusar ou reciclar. A quantidade de resíduos gerada pela Universidade é muito grande. Então, já que eliminar é praticamente impossível, minimizar já é o primeiro passo para você fazer um gerenciamento de resíduos adequado”.

Para Cássia, é essencial viabilizar a inserção da química verde dentro das práticas de ensino. “A gente tem colocado em questão o avanço das nossas pesquisas nesse quesito de reduzir quantidades, de adaptar consumo energético, o consumo de água, tudo isso contribuindo para a formação dos alunos”.

Suellen Aparecida Alves, professora do Departamento de Química, concorda com Cássia e diz que a formação dos acadêmicos que inserem uma prática sustentável em suas atividades é um ponto essencial a ser ressaltado. “O mercado hoje atua dessa maneira. Ele está vendo que a sustentabilidade, eles precisam caminhar junto com isso”.

Agenda 2030

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU lançados como meta para serem cumpridos até 2023 estão diretamente ligados à pesquisa sobre Química Verde desenvolvida pela UEPG. O Projeto Versus contempla 2 ODS: 4 – Educação de qualidade; e 12 – Consumo e produção responsáveis. 

“O mundo inteiro está se esforçando para atingir isso”, comenta Matheus José Prestes, futuro bacharel, que entrou no projeto por curiosidade e hoje não consegue dissociar o pensamento sustentável do seu dia a dia. A acadêmica Beatriz Martins Torati, também do bacharelado, conta que sua visão sobre o mercado de trabalho mudou a partir do momento em que passou a ter uma experiência em um laboratório de química orgânica equipado e funcionando dentro do conceito de química verde  “A gente acaba pensando lá na frente, acaba tendo mais essa noção: como que vou planejar, o que eu vou fazer com o resíduo que eu possa gerar?”.

Por outro lado, Ulisses, acadêmico de Licenciatura em Química, comenta que a vivência no Versus ofereceu a ele uma nova perspectiva sobre o ensino. “Você aprende na química convencional que é preciso chegar no ponto B, saindo do ponto A. Então o teu caminho é linear. Mas na química verde, você pensa primeiro no ponto que você quer chegar pra você definir o seu caminho. Isso é importante para você ter profissionais mais conscientes no futuro”. E completa: “eu acho que o objetivo principal é chegar num ponto em que a química esteja completamente integrada dentro dos currículo da universidade”.

Receber um recurso como esse destinado a um laboratório didático, para a professora Marilei, é um acontecimento muito significativo. “Quando a gente participa de outros editais, raramente os recursos são direcionados para os laboratórios didáticos, normalmente a verba é direcionada para os laboratórios de pesquisa”. 

Multiprofissional

A possibilidade de entrar em contato com colegas de diferentes áreas amplia o conhecimento dos estudantes e reforça a necessidade de ter laboratórios equipados. Gabriely Cristiny Braga está estudando para ser bacharel, mas tem contato com atividades e colegas da Licenciatura. “O  projeto ampliou também muito a minha visão relacionada ao ensino. E a professora Marilei sempre vem com projetos diferentes que fazem com que a gente enxergue a universidade de outra maneira”. 

Um legado: fazer a diferença

Além de colegas de outras áreas, Versus conta com a presença de uma egressa. Juliane Pscheidt Alves ressalta que conhece o mercado de trabalho, suas exigências, e que reconhece como aqueles que passaram pelo projeto já estão fazendo a diferença lá fora. “O projeto tem transformado o Departamento; os profissionais já estão saindo diferentes, com outras visões, isso é muito importante”. 

Lorena do Rocio Gebeluca, por outro lado, está apenas no seu segundo ano do bacharelado, mas já reconhece a importância do trabalho desenvolvido nos laboratórios da UEPG. “A química verde é o futuro da química. Eu acho que vou levar isso em todos os meus anos da graduação para todos os meus colegas”.

A verba concedida pelo prêmio já está em processo de liberação e possibilitará que as atividades repaginadas aconteçam ainda em 2024. As quatro professoras Marilei, Cássia, Suellen e Célia se orgulham do trabalho desenvolvido e se emocionam com os depoimentos compartilhados. “O futuro será norteado pela sustentabilidade e vocês estarão lá fazendo isso acontecer”, declara Marilei à sua equipe.

Texto e fotos: Domitila Gonzalez

As universidades estaduais paranaenses conquistaram boas posições no ranking internacional Webometrics Ranking of World Universities. A Universidade Estadual de Maringá (UEM) ficou na 30ª posição entre as instituições brasileiras e, também, classificada entre as 100 melhores da América Latina. O levantamento é realizado pelo Cybermetrics Lab, um grupo de associado ao Consejo Superior de Investigaciones Científicas, órgão público de pesquisa ligado ao governo da Espanha.

O ranking leva em consideração a presença digital da universidade na internet, com indicadores como a relevância dos conteúdos e a eficiência da instituição em expor a própria atuação e impacto acadêmico para a comunidade externa. Outro fator presente na metodologia da pesquisa é a contribuição bibliográfica para a ciência, como publicações e menções em artigos. Entre os procedimentos, a análise utiliza o levantamento quantitativo de links, acessos e citações em pesquisas do Google e do Google Acadêmico.

As universidades de Londrina (UEL) e Ponta Grossa (UEPG) figuraram nas posições 49ª e 67ª, respectivamente, das instituições brasileiras ranqueadas. As demais universidades estaduais paranaenses ficaram nas seguintes posições: a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) em 79º lugar; a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) em 144º; a Universidade Estadual do Paraná (Unespar) em 149º; e a Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) em 157º.

Criada em 2004, a pesquisa elenca mais de 30 mil instituições de ensino superior em todo o mundo e defende que a melhor estratégia para a disseminação do acesso livre ao conhecimento é a melhoria e expansão dos conteúdos digitais. Dessa forma, os pesquisadores entendem que a eficiência nessa área é um indicativo para a qualidade do ensino como um todo.

Entre as outras universidades públicas paranaenses, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) obteve a 7ª posição. A Universidade Tecnológica Federal do Paraná está na 45ª, a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) na 82ª, e a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) na 164ª.

O Paraná Mais Orgânico (PMO) é iniciativa do Estado do Paraná que tem como objetivo orientar e certificar produtores orgânicos. Sendo o primeiro programa de certificação gratuito do Brasil, o PMO surgiu a partir da constatação de que o modelo de produção e consumo de alimentos no país poderia ser melhorado. Baseado nos agrotóxicos e fertilizantes minerais, esse tipo de produção, quando mal manejado, tem causado impactos negativos no meio ambiente e afetado a saúde da população, levando o mercado a prestar cada vez mais atenção aos produtos orgânicos.

Com núcleos em todas as universidades estaduais do Paraná, o programa tem colaborado para que o estado tenha o maior número de produtores certificados no país, sendo responsável por 47,7% dos certificados paranaenses. O núcleo Unicentro, formado por equipe de quatro agrônomos e um técnico em agroecologia, certificou cerca de 70 produtores só no ano de 2023. O processo de certificação não tem custo para o produtor, a equipe visita as propriedades, avalia a produção e elabora plano de manejo individualizado. Tudo isso de modo a indicar as conformidades e não conformidades de acordo com a Lei de Orgânicos e ajudar na transição do modelo convencional para o orgânico.

Existem três formas possíveis de certificação prevista em lei: auditada, Organização de Controle Social (OCS) e participativa. O PMO atua nas três formas de certificação. Para ter sua produção certificada é muito simples, basta entrar em contato com núcleo do Paraná Mais Orgânico através do telefone (42) 3629-8259 ou das redes sociais e a equipe irá te orientar.

Vale lembrar que o Estado do Paraná tem um decreto para tornar a alimentação escolar 100% orgânica até 2030 e parte dessa produção virá da agricultura familiar. Dessa forma, têm sido feitos cada vez mais investimentos para incentivar os pequenos produtores.

Já estão abertas as inscrições para o Concurso Público da Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná) para o cargo de Assistente de Fiscalização da Defesa Agropecuária, na função de Técnico Agrícola/Agropecuária e a remuneração passa dos R$ 4.900.

Entre os requisitos, o candidato deve ter formação no Ensino Médio profissionalizante com título de Técnico Agrícola ou Técnico em Agropecuária, Registro Profissional regular no CFTA (Conselho Federal dos Técnico Agrícolas) e CNH (Carteira Nacional de Habilitação) categoria B ou superior, sem restrição, em situação regular no Detran (Departamento de Trânsito).

A prova objetiva está prevista para ocorrer no dia 17 de março de 2024, em seis cidades paranaenses: Cascavel, Curitiba, Londrina, Guarapuava, Pato Branco e Paranavaí.
As inscrições devem ser realizadas até dia 19 de fevereiro, no site do Instituto AOCP, instituição organizadora do certame, pelo endereço eletrônico: www.institutoaocp.org.br.

Os candidatos devem se manter atentos ao site da organizadora, que é o canal oficial do concurso, para ficarem por dentro de todos os detalhes e etapas da seleção.

Sobre o Instituto AOCP

É uma associação civil sem fins lucrativos e econômicos, sediada em Maringá (PR). Há mais de uma década, a instituição organiza processos seletivos e concursos públicos em todo o país e colabora com entidades e projetos sociais através do assessoramento técnico, administrativo e financeiro. Entre as ações que realiza, o Instituto amplia oportunidades para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social por meio da educação, fomentando projetos socioeducacionais.

SERVIÇO
Instituto AOCP

www.institutoaocp.org.br
Central de Relacionamento com o Candidato: candidato@institutoaocp.org.br
Telefone: 44 3013-4900

Chat IAOCP – com acesso direto pelo site

A Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), por intermédio do Laboratório de Microbiologia e Microbiologia (LAMIBI) e do Programa de Pós-Graduação em Conservação e Manejo de Recursos Naturais (PPRN), estabelece uma colaboração sinérgica com o setor produtivo agropecuário. O engajamento é fortalecido por meio do apoio de órgãos de fomento, como a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (SETI) e a Fundação Araucária, que contribuem com financiamento por intermédio dos Núcleos de Pesquisa e Inovação Avançada (NAPIs).

O trabalho do LAMIBI e do PPRN é um dos destaques no 36ª Show Rural Coopavel, evento que abre oficialmente o calendário do agronegócio nacional, em Cascavel, no Oeste do Paraná, 5 a 9 de fevereiro. A Unioeste está com um espaço de exposição no evento, um dos mais importantes na área tanto no Brasil como no exterior. O projeto faz parte do AgriTech Symbiosis Labs criado pela Unioeste para auxiliar no atendimento às empresas.

As ações dessas unidades de pesquisa existem há mais de uma década e contam também com a participação de empresas parceiras, sob a coordenação da professora doutora Fabiana Gisele da Silva Pinto.  “O objetivo é fomentar a criação de bioinsumos microbiológicos, bioprodutos e nanotecnologias com aplicações específicas no âmbito agroalimentar”, frisa Fabiana.

 A professora conta que nos últimos três anos houve um foco maior em parcerias. “Esse incremento se deve à busca contínua das empresas pelo desenvolvimento, inovação e adoção de novas tecnologias, especialmente aquelas relacionadas à criação de produtos biológicos inovadores”.

Sobre as perspectivas futuras, a pesquisadora conta que no decorrer do projeto, existe um plano estratégico com objetivo de desenvolver novos produtos biológicos, abrangendo diversas funções biológicas, entre elas a criação de um NPK biológico. “Nosso foco permanecerá na busca por soluções que proporcionem um custo-benefício vantajoso para a produção agrícola, ao mesmo tempo em que priorizamos a promoção da saúde e bem-estar nas esferas humana, animal e ecológica”, menciona Fabiana.

Fabiana diz que é meta não apenas aprimorar as características e funcionalidades dos produtos já existentes, mas também explorar novas possibilidades que contribuam para uma agricultura mais equilibrada e amigável ao meio ambiente. “A criação de produtos biológicos inovadores não apenas promove avanços científicos, mas também contribui para a formação de profissionais qualificados e engajados com os desafios contemporâneos.”

Show Rural

Para a coordenadora do projeto, levar a ação ao Show Rural é uma estratégia crucial para ampliar a visibilidade da Unioeste, destacando-a como uma instituição comprometida com a inovação não apenas nacionalmente, mas também internacionalmente. “A participação no evento possibilita que o projeto seja reconhecido por um público diversificado, incluindo agricultores, pesquisadores, empresários e profissionais do setor agrícola”, cita.

Conforme a coordenadora, a utilização de bioinsumos microbiológicos e bioprodutos na redução da presença de substâncias tóxicas nos cultivos, promove a produção de alimentos mais seguros e saudáveis. “Além disso, tais produtos favorecem a preservação da biodiversidade do solo e ecossistemas agrícolas, promovendo práticas agrícolas mais sustentáveis”, frisa.

Fabiana evidencia que a aplicação de nanotecnologias no contexto agroalimentar oferece vantagens significativas, permitindo a liberação controlada de nutrientes, melhorando a eficiência do uso de insumos e reduzindo desperdícios. “A transição para essas soluções biológicas não apenas atende às demandas por inovação no setor, mas também contribui para a construção de um modelo agrícola mais sustentável e alinhado com as crescentes preocupações ambientais”.

Ao destacar a importância da participação no Show Rural Coopavel, a  pesquisadora acredita que o espaço de divulgação é uma oportunidade única para estabelecer parcerias estratégicas com outras instituições, empresas e organizações presentes. “Essas colaborações têm o potencial de potencializar o impacto do projeto, abrindo portas para novas oportunidades de pesquisa e desenvolvimento, bem como facilitando a implementação prática das inovações propostas”.

Texto: Mara Vitorino