Estamos no Agosto Lilás. Essa é uma campanha criada em referência à Lei Maria da Penha, que, em 7 de agosto de 2023, completou 17 anos, e surgiu para amparar mulheres vítimas de vários tipos de violência… física, sexual, psicológica, moral e patrimonial. Este é o símbolo de luta árdua, porque trata de um panorama dramático.
O ano de 2022 foi especialmente difícil para as mulheres no Brasil, visto que todos os indicadores de violência contra elas subiram no ano passado. Apesar da diminuição dos casos de homicídio no país, os casos de feminicídios cresceram 5,5% entre 2021 e 2022. Ainda houve um aumento de 16,9% em casos de tentativas de assassinato de mulheres. A violência doméstica também cresceu, os números saltaram 3,4% em relação a 2021. Além desses dados, houve um aumento de 8,1% em medidas protetivas solicitadas com urgência neste período.
Esse aumento pode ser explicado por várias razões, uma delas foi a falta de investimento em políticas públicas voltadas à prevenção da violência doméstica. Os dados públicos evidenciam que houve um corte de 90% da verba que seria destinada a políticas de enfrentamento à violência doméstica e familiar, além dos investimentos que seriam direcionados às unidades da Casa da Mulher Brasileira e de Centros de Atendimento às Mulheres.
A insuficiente injeção de recursos também se reflete na escassa fiscalização das medidas protetivas, o que contribui para que casos de violência doméstica evoluam para feminicídios. Não é raro que vítimas de feminicídio já tivessem obtido medidas protetivas, mas que, sem a devida fiscalização, se tornaram inefetivas.
Outro fator relevante é a grande quantidade de armas nas mãos da população civil, por meio de decretos de flexibilização do acesso às armas de fogo e munição nos últimos quatro anos. A presença de uma arma em um ambiente doméstico aumenta o risco de vida de mulheres, sobretudo daquelas que já se encontram em um ciclo de violência em casa.
Destaca-se também o aumento do movimento conservador que defende a desigualdade de gênero nas relações, além de naturalizar a submissão das mulheres e o uso da violência como forma de dominação e superioridade masculina. Essa ideologia, aliada ao acesso de armas e aos fatores citados acima, pode ser um dos fatores que fizeram os números aumentarem neste período.
Já em relação a 2023 os dados não são otimistas visto que o primeiro trimestre representa quase metade dos feminicídios ocorridos em 2022. O Paraná sofreu um aumento considerável de casos em comparação a 2022, saltando de sexto para terceiro nas estatísticas nacionais. É o que evidencia os relatórios mais recentes do Monitor de Feminicídios do Brasil. A ferramenta, elaborada pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM), identificou 862 casos de feminicídios em todo Brasil, o que configura uma média nacional de 3,32 feminicídios por dia.
O LESFEM é um espaço de pesquisa interdisciplinar que reúne pesquisadoras e pesquisadores, profissionais e estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), do Coletivo Feminino Plural (CFP) e da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres de Londrina (SMPM).
Com o intuito de produzir e analisar dados sobre crimes de feminicídios do Brasil, o Laboratório colabora para o monitoramento e visibilidade do fenômeno, além de contribuir para o enfrentamento à violência contra mulheres e meninas, usando como base três pilares: prevenção, punição e restituição de direitos.
Integrante do Laboratório e doutoranda em Sociologia, Beatriz Molari explica como é feita a produção e a análise dos dados sobre crimes de feminicídios no Brasil. “Nós desenvolvemos cinco linhas de atuação distintas para abordar a questão do feminicídio. Por exemplo, a linha de acesso à justiça analisa e acompanha todo o processo de um crime de feminicídio desde a acusação até as diferentes instâncias do julgamento. Nossas pesquisadoras acompanham de perto o processo para avaliar a aplicabilidade da qualificadora de feminicídio. Com base em nossa metodologia, emitimos relatórios que julgam o quanto o resultado do julgamento pode contribuir ou não para fazer justiça considerando o crime de feminicídio”.
Outra linha de atuação é a de coleta de dados sobre feminicídios, que desempenha um papel crucial no monitoramento desses crimes. A coordenadora do LESFEM, Silvana Mariana, comentou que houve um aumento significativo na quantidade de feminicídios divulgados pelas estatísticas oficiais. “No entanto, através do trabalho de coleta de dados, percebemos que muitos casos que não são qualificados dessa forma ocorrem e são tratados de maneira diferente, sem o devido reconhecimento da motivação sexista e machista tão presente na sociedade brasileira. Além disso, temos a linha de atuação focada nos feminicídios linguísticos. Nessa linha, analisamos o discurso patriarcal emitido pelos tribunais de júri e pelos operadores de direito durante a definição dos julgamentos. Investigamos questões morais e ideológicas que podem influenciar nas punições atribuídas aos agressores de mulheres. Em resumo, nosso trabalho abrange diversas áreas, desde o acompanhamento dos processos judiciais até a coleta e análise de dados”.
Outra atividade realizada pelo Laboratório é o monitoramento de dados sobre feminicídios no Brasil, que tem como objetivo identificar e quantificar casos de violência contra a mulher. Beatriz Molari explica como é feita a coleta desses dados. “Essa ferramenta ajuda a localizar reportagens e matérias de crime de feminicídios dentro daquele espaço geográfico estabelecido. Então, por meio dessa ferramenta são emitidos alertas quando são noticiados esses crimes. A nossa equipe de contra dados verifica esses alertas, lê as reportagens e quantifica quantos casos de feminicídios ocorreram naquele período especificado. Então, por meio do monitor, nós queremos oferecer ferramentas para que as estatísticas oficiais sejam comparadas com a realidade que é encontrada pelas nossas especialistas. Infelizmente, estamos vendo casos de subnotificação, casos de feminicídios que são, muitas vezes, noticiados pela imprensa brasileira, mas que não contam com as estatísticas oficiais, porque, infelizmente, nós estamos em uma situação que ocorrem três ou quatro homicídios por dia que é algo preocupante e que deve chamar a atenção.”

Durante a produção desta reportagem, a UEL, por meio de um projeto de extensão, inaugurou no dia 14 de julho, sob idealização e coordenação da professora do Departamento de Direito Privado, Claudete Carvalho Canezin, o Núcleo de Atendimento de Violência Doméstica na Delegacia da Mulher (Nuavidem).
De acordo com informações apuradas pelo O Perobal, a cerimônia de inauguração realizada no Escritório de Aplicação de Assuntos Jurídicos (EAAJ) da Universidade foi marcada pela presença de diversas autoridades comprometidas com o enfrentamento à violência contra a mulher, incluindo a secretária de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa, Leandre Dal Ponte.
O Núcleo passa a integrar a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), em Londrina, e fornecerá orientação jurídica com base nas informações fornecidas pelas vítimas de violência, além do encaminhamento aos demais órgãos da rede de enfrentamento à violência contra a mulher, como o Centro de Referência no Atendimento à Mulher (CAM), Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), Centro de Referência em Assistência Social (Cras), Casa Abrigo e Núcleo Maria da Penha (Numape).
“Nós vamos poder encaminhar ela [já na delegacia] para a rede de atendimento. Então, ela vai poder vir aqui para o Numape sabendo que faremos o processo de dissolução da união e de separação de bens. Além disso, o NEDDIJ [Núcleo de Estudos e Defesa de Direitos da Infância e da Juventude] fará o processo para as crianças terem pensão alimentícia. Se ela sofrer ameaça de feminicídio, nós vamos encaminhar ela para ser colocada no abrigo, onde é sigiloso e ela poderá ficar com os filhos, que não serão prejudicados, pois terão à disposição pedagogos e professores”, explica a coordenadora. “A rede trabalha para o bem-estar dessa mulher, porque o nosso objetivo é que ela saia da violência, que ela denuncie para poder combater, mas que ela tenha segurança”, complementa.

Financiado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Seti), o Nuavidem conta com uma equipe composta por sete pessoas que vão trabalhar em conjunto com a Polícia Civil do Paraná. O grupo é formado por duas advogadas, três alunas do curso de Direito e duas de Psicologia.
De acordo com a coordenadora, apesar de ser um projeto piloto, o Núcleo tem potencial para ser expandido a outras cidades, seguindo um caminho semelhante ao do Numape em Londrina, também idealizado por ela. Atualmente, Canezin coordena o projeto em todo o Estado, incluindo a unidade no município, resultando em um total de 11 unidades do Núcleo Maria da Penha espalhadas pelo Paraná. Todos os núcleos são financiados pela SETI.
Aliás, é bom destacar que o trabalho dos Numape vem sendo reconhecido não só por aqui, mas nacionalmente. Durante a 75ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada no campus Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, entre 23 e 29 de julho, um projeto de extensão do Núcleo Maria da Penha, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), recebeu o Prêmio Destaque na Iniciação Científica, oferecido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
O Prêmio Destaque na Iniciação Científica e Tecnológica é concedido anualmente pelo Conselho, desde 2003, e conta com as parcerias da SBPC e da Academia Brasileira de Ciências. O objetivo é estimular e reconhecer os melhores trabalhos de bolsistas que estão iniciando no universo da pesquisa científica.
Segundo uma das coordenadoras, Crishna Mirella, o projeto “Lei Maria da Penha e o enfrentamento à violência doméstica no ambiente escolar” é vinculado ao Observatório de Violência de Gênero da UEM e ao Numape. Dentro do eixo das ações preventivas do Núcleo, surgiu a oportunidade de atuar dentro da escola do Colégio de Aplicação da Universidade. O grupo solicitou bolsas em um edital do Programa Institucional de Iniciação Científica (PIBIC-Ensino Médio) e foi aprovado. A ação está na sua quinta edição, mas o prêmio é relativo à quarta, que ocorreu entre 2012 e 2022.

Seis estudantes atuaram nesse período no CAP fomentando a discussão sobre a violência doméstica contra mulheres e, também, sobre a violência contra mulheres no espaço escolar. Eram realizadas discussões semanais, que deram origem a bibliografias que foram redigidas em linguagem acessível para a idade das meninas que têm, em geral, entre 15 e 17 anos. Esse material retornou em oficinas que as integrantes do projeto organizaram na escola, na segunda etapa da iniciativa. A última fase foi a produção de materiais didáticos, também acessíveis para os colegas e as colegas, tudo supervisionado pela coordenação para garantir a linguagem de jovem para jovem.
“Isso é super importante para nós, esse contato com as alunas do ensino médio, porque a linguagem das violências sofridas, a linguagem das tensões, dos medos são traduzidas para a essa faixa etária. Então, para nós é importante esse contato para aprender um pouco com elas também e o grupo consegue, a partir da formação que a gente dá, produzir esse trabalho na escola, nas últimas etapas do projeto”, explica Crishna Mirella.
O prêmio desta edição foi entregue à estudante Isabela Mayumi Gondo, apesar da ação ter tido a participação de mais cinco alunas do CAP, além de Crishna e da outra coordenadora, a professora Gláucia Brida, da Psicologia.
Isabela Gondo disse que a experiência a fez ter certeza de que quer cursar Direito e lutar por causas como a das mulheres. “Vou terminar o ensino médio e fazer o vestibular na UEM, porque eu me achei aqui, com a ajuda das professoras”. A estudante recebeu R$ 5 mil e um ano de bolsa de pesquisa, do CNPq.
A formanda do curso de Fisioterapia, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Gabrielle Batista Aguiar, ficou entre os cinco melhores colocados na V Olimpíada Brasileira de Neurociências para Graduandos (OBNG). A competição reuniu mais de 220 participantes de Instituições de Ensino Superior privadas, estaduais e federais do Brasil inteiro.
Pela primeira vez, houve uma integração entre duas olimpíadas, a III Olimpíada Brasileira de Fisiologia (OBFis) e a OBNG. Ambas realizadas com o apoio da Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), da Sociedade Brasileira de Fisiologia (SBFis), da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC) e da Organização Ciências e Cognição.
Gabrielle é formanda do ano letivo de 2023 e participou das duas olimpíadas ao mesmo tempo, mas ficou entre as melhores colocações na de Neurociências. As competições têm o intuito de estimular os estudantes e desafiá-los a colocar o conhecimento sobre as ciências do cérebro e fisiologia em prática.
Segundo a formanda, as provas realmente exigiram um bom preparo. Porém, as orientações dos professores a ajudaram a conquistar a quarta posição no ranking. “Eu me preparei por meio das anotações das aulas ministradas pelos docentes da Unioeste. Em todas as aulas, aprendi conteúdos que foram essenciais para responder a prova. Além disso, estudei por flashcards antes de cada prova para melhor memorização”, relata Gabrielle.
Gabrielle conta, ainda, que, desde o primeiro ano de graduação, participa de um grupo de pesquisa na área de neurociência e se familiariza com o assunto. De acordo com ela, muitos professores vieram à sua mente enquanto participava das Olimpíadas, pois todos abordavam os assuntos que caíram na prova de uma forma muito didática e completa. “Essa conquista reflete o nível de excelência que a Unioeste nos proporciona, no ensino, na pesquisa e na extensão. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa universidade”, diz.
A formanda recebeu menção honrosa por estar entre os dez primeiros colocados na OBNG e outra menção por chegar na final da Olimpíada Brasileira de Fisiologia, ficando entre os 20 melhores do país.
As Olimpíadas
As Olimpíadas foram divididas em três fases. A primeira foi uma Prova Quiz, na qual os participantes tiveram, no máximo, 120 minutos para responder um teste de múltipla escolha, com 50 questões, abrangendo conhecimentos básicos de neurociências e fisiologia.
Os 50% melhores classificados avançaram para a próxima etapa: a Prova de Conhecimentos Avançados com 60 minutos para responder 25 questões de múltipla escolha sobre temas mais avançados de cada área de estudo.
Os 20 melhores classificados avançaram para a próxima etapa, a Prova Live Questions. Nesta última fase, os participantes responderam a perguntas ao vivo, demonstrando suas habilidades de pensamento rápido e conhecimento em tempo real. Foram 25 questões e os participantes tiveram 90 segundos para dar respostas a cada uma
A prevalência global de autismo é de 1 para cada 100 pessoas e vem aumentando nas últimas décadas
Estima-se que 90% dos casos de autismo têm uma influência genética. E uma das principais dúvidas a serem respondidas é: qual a probabilidade de um bebê nascer com autismo? A resposta, o Chatbot, desenvolvido no Laboratório Genetika, pode oferecer. O robô responde às perguntas de casais que se preocupam se terão um filho autista. A conversa funciona como uma triagem e de forma gratuita, apontando as condições, de acordo com o histórico familiar. Essa é a primeira ferramenta para aconselhamento genético sobre autismo, desenvolvida no Brasil e no mundo.
Ao iniciar a conversa com o Chatbot e obter as informações científicas necessárias, o casal decide se irá passar por um aconselhamento genético ou, até mesmo, testes genéticos, para entender com mais precisão sobre os riscos de ter um filho com autismo – explica Salmo Raskin, médico geneticista idealizador do projeto e diretor do laboratório Genetika, em Curitiba.
Tendo o interesse pelo assunto, a pessoa faz um breve cadastro, com informações básicas como nome, e-mail e telefone, e é direcionada para o Whatsapp, onde conversa com a Dika, a ferramenta de Chatbot. Ali começa o primeiro passo da triagem com a seguinte pergunta: você ou seu parceiro(a) ou alguém da tua família tem diagnóstico de autismo?
No decorrer da conversa, novas perguntas são feitas e o Chatbot começa a analisar o caso a partir de outras doenças – caso existam, e que podem estar relacionadas com o transtorno do espectro autista. “É uma prevalência muito alta e que vem aumentando muito nos últimos anos, de modo que é um problema da saúde pública para todas as populações, inclusive para população brasileira. É importante que esse grande número de famílias possa ter acesso às informações sobre riscos de virem a ter um outro filho autista”, concluiu Salmo.
Se o casal não tiver diagnóstico de autismo na família, o robô informa a prevalência de autismo na população em geral. “A prevalência global de autismo é de 1 para cada 100 pessoas, e vem aumentando nas últimas décadas. Cerca de 2% das crianças até os 8 anos de idade são diagnosticadas com autismo, nos Estados Unidos, mas essa frequência também mostra que 97,5% delas não terão autismo”, informação dada pelo robô, no momento da triagem, aponta o geneticista Salmo.
O geneticista explica sobre a ideia de criar o Chatbot. “Surgiu de uma reflexão da falta de acessibilidade das pessoas e de informações sobre genética, além do pequeno número de médicos geneticistas do Brasil. O Chatbot tem sido utilizado não para fazer o papel do médico, porque essa não é a intenção, e sim, de uma triagem”.
Salmo Raskin possui graduação em Medicina, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Pediatria, pela UFPR, e em Genética Médica, pela Universidade de Vanderbilt, Nashville, Tennessee. Mestrado em Genética pela UFPR e migrou para doutorado em Genética, também pela UFPR. É diretor do Centro de Aconselhamento e Laboratório Genetika, em Curitiba. Atualmente, é membro titular da Sociedade Brasileira de Genética Médica, presidente Científico do Departamento de Genética da Sociedade Brasileira de Pediatria. Foi Presidente por dois mandatos da Sociedade Brasileira de Genética Médica. Médico geneticista do Hospital do Trabalhador/CAIF e do Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Genética Molecular e Genética Médica, atuando principalmente nos seguintes temas: diagnóstico molecular e clínico de doenças genéticas.
Rede AgroParaná lança livro com 35 pesquisas sobre conservação de solo e água
A Rede Paranaense de AgroPesquisa e Formação Aplicada (Rede AgroParaná) apresentou nesta terça-feira (22) o livro “Manejo e conservação de solo e água”, que reúne o maior estudo de solo e recursos hídricos no País. O evento na sede do Sistema Faep/Senar-PR, em Curitiba, contou com a presença de secretários estaduais, representantes das entidades integrantes da Rede, pesquisadores e especialistas.
A obra reúne os resultados de 35 estudos realizados por 150 pesquisadores de 19 instituições de ensino, universidades e fundações privadas. O projeto conta também com 55 bolsas de pesquisas. “Esse livro sintetiza todo esse trabalho e o monitoramento das microbacias espalhadas por sete mesorregiões do Estado”, apontou Graziela Moraes de Cesare Barbosa, uma das editoras da publicação.
Em função da profundidade e ineditismo, a publicação é considerada uma referência para agricultores, pesquisadores, professores da área e técnicos de campo. O livro trata, em detalhes, sobre a formação e as metodologias usadas no âmbito da Rede AgroParaná. Para a execução das pesquisas, a Rede contou com três patrocinadores: o Sistema FAEP/SENAR-PR, que investiu R$ 6 milhões, e a Fundação Araucária e Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), que, somados, destinaram o mesmo valor.
De acordo com o secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, Norberto Ortigara, o livro chega em um momento muito importante para a produção de alimentos. “O Sistema Faep e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior somaram esforços para entregar os primeiros resultados desses estudos, que vão começar a calibrar nossas ações”, disse. “Não abrimos mão de safra cheia, com o máximo resultado possível, mas fazendo as coisas do jeito certo”.
O secretário da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Aldo Nelson Bona, elogiou a união de esforços entre instituições públicas e privadas para promover estudos acadêmicos que tenham eco em problemas enfrentados pela sociedade. “Esse projeto da Rede AgroParaná é um embrião desse processo de produzir conhecimento para que o agricultor consiga aplicar em suas atividades. Deixo as portas abertas para outros projetos que venham a surgir e registro nossa disposição de continuar nessa perspectiva de trabalho em conjunto”, apontou.
Durante o lançamento do livro, o presidente do Sistema Faep/Senar-PR, Ágide Meneguette, lembrou que o Paraná sempre esteve à frente das pesquisas sobre solo e água, e que, com a rede de pesquisa, o Estado retoma à vanguarda. “O resultado recorde da última safra deixou muita gente surpresa, mas a mim não. São anos de trabalho e investimento para melhorar o solo do Paraná. A maior fortuna que nós, produtores rurais, podemos ter é que o nosso solo esteja bem conservado e produtivo”, enfatizou.
O contingente de pesquisadores está à disposição do setor produtivo paranaense, segundo Ramiro Wahrhaftig, presidente da Fundação Araucária. Para ele, basta que iniciativas como a Rede AgroParaná sejam formadas e direcionem esforços. “Temos que investir nossos recursos naquilo que a sociedade precisa, não apenas naquilo que os pesquisadores querem oferecer. Governar é atender as necessidades, mas olhar às oportunidades. Nesse caso, quando envolvemos a ciência e tecnologia, estamos sempre olhando os dois”, resumiu.
REDE – A Rede Agroparaná é formada pela Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), Fundação Araucária de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Estado do Paraná, Sistema Faep/Senar-PR, Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná (Fetaep) e Sistema Ocepar.
As informações do Waze for Cities são sincronizadas com um mapa da cidade que mostra os principais pontos e horários de congestionamento
Congestionamento de trânsito é uma realidade enfrentada diariamente por motoristas. E o problema não é novo: o primeiro engarrafamento teria sido registrado 1921, nos Estados Unidos. Essa dificuldade, presente hoje em cidades de todos os portes, levou à criação de aplicativos de navegação, como o Waze, que têm solucionado, ou ao menos amenizado, o problema. Mas, além de serem úteis como soluções individuais, os aplicativos de navegação podem ser usados também na gestão da mobilidade urbana. Captar, extrair e transpor esse tipo de dados é o objetivo de uma ferramenta que vem sendo desenvolvida pelo grupo de pesquisa em Mobilidade e Matriz Energética da UNILA.
Com o acesso ao Waze for Cities – dados de trânsito fornecidos para a gestão de trânsito – e utilizando a linguagem Python (para computador), o estudante de Engenharia de Energia João Gabriel de Souza Mesquita, integrante do grupo, une as informações geradas a partir dos usuários do aplicativo a um mapa georreferenciado desenvolvido pelo docente de Geografia Diego Flores, que também faz parte do projeto.
Os dados são captados em um computador de configuração avançada por um período determinado (de 24h a 72h, por exemplo) – e sincronizados com o mapa. “É como se fosse uma fotografia daquele período, só que registrada em dados. A cada momento, a cada relatório, os dados vão me dizer qual é o local de engarrafamento, qual é a velocidade média, qual é o comprimento do engarrafamento, a posição exata. O diferencial, então, é que podemos fazer análises estatísticas e oferecer ao município”, detalha João. “É uma forma de otimizar e possibilitar a melhora dos pontos de congestionamento em uma cadeia”, completa o também estudante de Engenharia de Energia Gabriel Soares, que encabeça a empresa júnior Energética, à qual está ligado o projeto que pode tornar-se, futuramente, um produto a ser oferecido.

“Essa não é uma ferramenta para o usuário final. Essa é uma ferramenta para a gestão de trânsito da cidade”, reforça o docente Ricardo Hartmann, coordenador da pesquisa. Por isso, o projeto tem parceria da Foztrans e da Guarda Municipal, responsável pelo Programa Vida no Trânsito em Foz do Iguaçu. Este tipo de trabalho já é desenvolvido em Joinville (SC), entre a UFSC e Secretaria de Pesquisa e Planejamento Urbano (Sepur), exemplifica ele.
O pesquisador lembra que “analisar a evolução histórica e tecnológica das cidades contemporâneas” é uma atividade de pesquisa que envolve diversas áreas de conhecimento e que o trabalho de planejamento e mobilidade urbana exige uma equipe multidisciplinar – engenheiros, geógrafos, arquitetos entre outros. Por isso, a parceria entre universidades e o poder municipal é uma solução possível para a busca de estratégias que melhorem o trânsito. “Não há como haver planejamento urbano sem uma boa equipe. Ao mesmo tempo, a parceria nos ajuda a fazer pesquisa e ensino de qualidade”, destaca Hartmann.
Vídeo mostra o trânsito durante 24h:
O trabalho está em sua primeira fase, que é o desenvolvimento da ferramenta em si – a transposição dos dados de trânsito para o mapa da cidade. Nas próximas etapas, serão adicionadas “camadas” que irão indicar em quais pontos existem lombadas, geradores de trânsito (escolas, igrejas), semáforos entre outros aspectos. “A ideia é que esses dados cheguem à Foztrans e à Guarda Municipal e que eles tenham numa sala de controle todas essas camadas”, pontua Hartmann. Após, serão adicionados algoritmos para o cálculo de consumo de combustível, custo e emissões de CO2 causados pelos congestionamentos, que estão sendo desenvolvidos dentro das pesquisas de nosso projeto com Termodinâmica das Cidades”, completa. O relatório com os primeiros resultados obtidos com o mapeamento será divulgado no Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana, que será realizado nos dias 13 e 14 de setembro, em Foz do Iguaçu.
O trabalho desenvolvido pelo grupo de pesquisa da UNILA irá complementar dados que o município já dispõe para a gestão do trânsito, diz o diretor-presidente da Foztrans, Fernando Maraninchi. “[O trabalho] demonstra a necessidade de se continuar investindo cada vez mais em mobilidade urbana. Não é só colocar ônibus, é principalmente, abertura de vias e um planejamento urbano sustentável”, comenta, lembrando que existem muitos vazios urbanos na cidade que trazem prejuízos ao desenvolvimento do município. “Esses loteamentos são construídos, cada vez mais, distantes do centro”, diz, o que provoca diferentes problemas de mobilidade e exigem abertura de vias, por exemplo. Segundo ele, os dados iniciais obtidos com o projeto foram repassados para outras instâncias, como a Engenharia de Trânsito, para possíveis alterações no sistema atual, como implantação de semáforos ou ampliação de tempo semafórico e a colocação de faixas elevadas. “Vimos com bons olhos essa parceria com a UNILA e o acredito que teremos bons frutos.”

Para o coordenador de Trânsito da Guarda Municipal e do Programa Vida no Trânsito em Foz, Gerson Rodrigues Vieira, o uso da tecnologia a ser disponibilizada pelo estudo pode contribuir para a redução do número de acidentes. “A tecnologia está aí e temos de aproveitar tudo que pudermos para beneficiar a população”, comenta citando como exemplo a realização de estudos de viabilidade para a construção de passarelas, ciclofaixas, abertura de ruas e interligação de bairros. “O uso de aplicativos e de ferramentas pode contribuir significativamente na redução de acidentes e desobstrução do trânsito em todas as regiões”, reforça, lembrando que os pontos mais críticos de congestionamento estão próximos à Ponte da Amizade, acessos aos atrativos turísticos e BR-277. “Temos hoje uma única entrada para a cidade e isso acaba gerando um fluxo maior.”
A Semana Estadual de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná, evento denominado Paraná Faz Ciência 2023, será realizada no período de 7 a 10 de novembro, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), como parte da 20ª Semana Nacional da Ciência e Tecnologia (SNCT 2023). A iniciativa é resultado de uma parceria entre a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), a Secretaria da Inovação, Modernização e Transformação Digital (SEI), a Fundação Araucária de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico e a UEL.
Confira os editais do Paraná Faz Ciência 2023:
Edital 001/2023 – Paraná Faz Ciência 2023
A pesquisa científica que vai além dos muros das Universidades. Uma dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) serviu de embasamento para a criação de uma lei, em Ponta Grossa. O Decreto Municipal nº. 22.064, de 7 de julho de 2023, instituiu a Rede de Enfrentamento às Violências contra as Mulheres.
“Das violências domésticas e familiares ao feminicídio: a percepção dos profissionais que atuam nas políticas públicas de enfrentamento às violências contra as mulheres em Ponta Grossa/PR” foi publicada em 2020 e apontou a necessidade de maior articulação e estruturação em rede do enfrentamento à violência contra a mulher no município. O trabalho foi desenvolvido pela advogada Amanda Rangel, sob orientação da professora Jussara Ayres Bourguignon e coorientação de Paula Melani Rocha, na linha de pesquisa em Estado, Direitos e Políticas Públicas.
“Enquanto pesquisadores, temos a responsabilidade de devolver para a sociedade um produto científico que seja profícuo, útil”, aponta Amanda. Para ela, a utilização da dissertação para embasar o decreto é significativa, por registrar o impacto social do estudo e a importância das pesquisas realizadas na Universidade. No desenvolvimento do estudo, ela analisou as percepções dos profissionais que atuam nas políticas públicas de enfrentamento às violências domésticas e familiares praticadas contra as mulheres e feminicídios sobre a rede de enfrentamento e as políticas públicas voltadas para esse assunto em Ponta Grossa, nos anos de 2017 e 2018. A percepção apontada no trabalho é de que o trabalho da Rede precisava ser mais articulado e conectado para atender da melhor forma às vítimas de violência.
O trabalho está disponível no Repositório Institucional de Teses e Dissertações, neste link, e o decreto está disponível neste link.
Rede
A Rede de Enfrentamento às Violências contra as Mulheres do Município de Ponta Grossa tem como objetivo a articulação entre as instituições, serviços governamentais, não-governamentais e a comunidade para o fortalecimento das políticas públicas de enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres. São quatro eixos de enfrentamento: combate, prevenção, assistência e garantia de direitos.
Compõem a Rede representantes da Secretaria Municipal da Família e Desenvolvimento Social (Departamento da Mulher; Conselho Tutelar; Conselho Municipal dos Direitos da Mulher; Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente; Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial; Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa), Fundação Municipal da Assistência Social (Centro de Referência e Atendimento à Mulher; Centro de Referência Especializado de Assistência Social; Centro de Referência da Assistência Social; Casa Abrigo Corina Portugal; Conselho Municipal de Assistência Social); Secretaria Municipal de Cidadania e Segurança Pública (Patrulha Maria da Penha); Fundação Municipal de Saúde (Atenção Primária à Saúde; Saúde Mental; Vigilância em Saúde; Rede de Urgência e Emergência), Secretaria Municipal de Indústria, Comércio e Qualificação Profissional, Secretaria Municipal de Educação, Tribunal de Justiça do Paraná (Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher; Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania), Ministério Público do Estado do Paraná (16ª e 18ª Promotorias de Justiça), Defensoria Pública do Estado do Paraná, Polícia Militar, Polícia Civil (Delegacia Especializada da Mulher; 13ª Subdivisão Policial e distritos subordinados; Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes; Polícia Científica), Núcleo Regional de Ensino, Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção de Ponta Grossa (Comissão da Mulher Advogada, Comissão de Estudos sobre Violência de Gênero), 3ª Regional de Saúde, Universidade Estadual de Ponta Grossa (Núcleo Maria da Penha; Hospital Universitário, Hospital Universitário Materno-Infantil), e Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
Texto: Aline Jasper | Foto: Arquivo Pessoal / Mariene Suzina
Um projeto de extensão realizado pelo Campus Pato Branco vem utilizando a farinha desta planta que apresenta um alto teor de proteína na alimentação das crianças
Um projeto de extensão realizado pelo Campus Pato Branco está mobilizando a alimentação escolar no município. Uma pesquisa realizada por alunos de graduação em Química e do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia de Processos Químicos e Bioquímicos vem estudando as propriedades da planta ora-pro-nóbis.
A dissertação de mestrado da aluna Cássia Regina Eidelwein, sob orientação das professoras Marina Leite Mitterer Daltoé e Tatiane Cadorin Oldoni, realizou um projeto em duas escolas da rede pública do município introduzindo o uso da farinha de ora-pro-nóbis em pães.
Com o título de “Introdução de alimentos à base de farinha de ora-pro-nóbis na alimentação escolar da rede pública de ensino da cidade de Pato Branco: Curso de educação alimentar e nutricional e testes sensoriais” o objetivo foi identificar o impacto da neofobia alimentar nos hábitos alimentares e preferências alimentares em crianças entre 4 e 12 anos, promover oficinas de educação alimentar e avaliar a aceitação e emoções de um pão adicionado de farinha de ora-pro-nóbis.
De acordo com os pesquisadores, a escolha da farinha deste alimento não convencional (Panc) foi feita por ela apresentar um alto teor proteico (cerca de 25%, considerado muito alto) e, além disso, por possuir uma qualidade de aminoácidos muito importante em sua composição.
“Escolhemos um alimento que tivesse um elevado índice proteico e com qualidade”, explica a pesquisadora Marina Daltoé.
Nas escolas, a equipe consegui trabalhar com os aspectos da aceitação alimentar. “A farinha é verde, então, vai produzir um pão verde. Por isso, além de experimentarem um novo alimento, exploramos a questão da cor na aceitação das crianças e, com isso, estamos inserindo o alimento aos poucos no consumo cotidiano delas”, complementa a professora.
Até o momento o projeto já atendeu 900 crianças destas duas escolas. Segundo a equipe, a aceitação foi maior na escola que, além de receber o alimento, contou com um curso para as crianças. “Na escola que realizamos o curso, o número de crianças que desejaram provar foi muito maior. Isso demonstra que o medo do alimento novo, quando bem trabalhado e bem introduzido na alimentação, pode ser reduzido”, completa.
O projeto prevê expandir esta ação nas demais escolas da cidade e, por isso, conta com a parceria do Setor de Alimentação Escolar da Prefeitura de Pato Branco e da Empresa Proteios Nutrição Funcional. As pesquisas contam ainda com a participação da bolsista de extensão Marcela Janning Dos Santos.
Ora-pro-nóbis
O nome científico da ora-pro-nóbis é Pereskia aculeata. Por ela apresentar um alto teor de proteína, foi apelidada popularmente de “carne do pobre”. Pode ser consumida in natura ou como matéria-prima para a elaboração de farinha para ser utilizada como base para o preparo de bolos, tortas e pães. Entre os benefícios do seu consumo estão a prevenção da anemia, melhora do funcionamento do intestino, perda de peso, prevenção do envelhecimento precoce e diminuição do colesterol.
A Universidade Federal do Paraná (UFPR) apresentou os resultados de um estudo ambiental realizado na bacia do Rio Jacareí. A apresentação ocorreu no dia 2 de agosto, na Sede Histórica do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR, em Paranaguá. O evento contou com a presença dos pesquisadores da UFPR, equipes das prefeituras de Paranaguá e Morretes, representantes portuários, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e outros atores locais.

Realizado pelo Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (LAGEAMB-UFPR), o projeto buscou entender quais fatores influenciam o aporte de sedimentos da bacia do Rio Jacareí para o Complexo Estuarino de Paranaguá (CEP), no litoral paranaense. O levantamento pode contribuir para a proposição de soluções para reduzir a produção de sedimentos, além disso, os dados primários podem contribuir para mitigação e monitoramento de alagamentos e deslizamentos na região.
O monitoramento, encomendado pela Secretaria de Meio Ambiente de Paranaguá, envolveu equipe multidisciplinar e foi financiada pelo Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP). A execução do projeto, intitulado como “Análises hidrossedimentológicas e econométricas na bacia do Rio Jacareí”, começou em 2019, e também contou com o suporte da Envex Engenharia e Consultoria. Em média, oito visitas de campo foram realizadas pela equipe, que envolveu profissionais da geografia, engenharia ambiental e economia. Devido à complexidade do estudo, foi necessária uma divisão em três etapas.
A primeira foi finalizada em abril de 2021 e envolveu o diagnóstico físico e socioeconômico da bacia hidrográfica, com coleta de materiais, levantamento das áreas prioritárias à recuperação e conservação ambiental e estimativa inicial da produção de sedimentos com uso de álgebra de mapas. Na segunda etapa que durou até abril de 2022, os pesquisadores atuaram na modelagem hidrossedimentológica com apoio do modelo matemático Soil and Water Assessment Tool (SWAT) – nessa fase do estudo, foram analisadas as dinâmicas espaço-temporais da água e dos sedimentos.
A terceira e última etapa do estudo terminou em junho de 2023. Além de dar continuidade ao monitoramento da região, uma análise econométrica foi realizada para estimar a valoração dos serviços ecossistêmicos a partir da restauração florestal da bacia do Rio Jacareí. Segundo o estudo, caso existissem mais florestas maduras na bacia do rio Jacareí, os gastos com a remoção de sedimentos assoreados no Rio Jacareí seriam reduzidos em cerca de R$ 500 mil em 40 anos. Isso porque a cobertura vegetal do solo é uma excelente maneira de garantir a retenção de sedimentos e, consequentemente, evitar a perda de solo.
Com o monitoramento do local, os pesquisadores puderam organizar uma base de dados inédita, como os dados de precipitação, nível da água e vazão, bem como identificaram a influência do efeito orográfico no processo de precipitação, que ainda não tinham sido registrados em pesquisas na região. Por fim, os pesquisadores fizeram algumas recomendações, tais como: a restauração das áreas de preservação permanentes (APPs) da bacia, pois os sedimentos da bacia são muito instáveis; projeto piloto de adequação do uso da terra com a implementação de sistemas agroflorestais (SAFs); o potencial hidrológico da bacia do Rio Jacareí para o abastecimento de água para os municípios de Morretes e Paranaguá no futuro, uma vez que a bacia se encontra em área de mananciais no âmbito do Plano de Desenvolvimento Sustentável (PDS) e Plano de Bacias do Litoral.
Com informações do Lageamb/ UFPR
Com apoio do Estado, empresa cria tecnologia que rastreia trajetória das roupas
Para avançar contra a pirataria de roupas, a empresa R-Inove Soluções Têxteis, com sede em Maringá, no Noroeste do Estado, criou um equipamento que imprime um código binário no fio antes dele se tornar uma malha ou um tecido. A tecnologia é uma das propostas aprovadas na segunda edição do Programa de Subvenção Econômica de Apoio à Inovação e ao Desenvolvimento Tecnológico em Empresas – Tecnova Paraná, da Fundação Araucária e Finep, que incentiva ideias inovadoras.
Esse código permite mapear o histórico do produto, desde a origem da matéria-prima até a etapa produtiva. Ele é inserido no fio por uma tecnologia desenvolvida pela própria empresa. A leitura pode ser feita com QR Code (em peças novas, o código fica na etiqueta) ou por meio de um aplicativo, que permite identificar, com luz ultravioleta, a existência do código em peças usadas. Os testes feitos até o momento mostram que há permanência do código sobre o artigo têxtil, mesmo com uso prolongado ou lavagem. A proposta recebeu R$ 259 mil do Tecnova.
Segundo a engenheira têxtil Micheline Maia Teixeira, da R-Inove, apesar de ser um grande gerador de emprego e renda, o setor têxtil ainda tem grandes desafios. “O setor tem dificuldade de separar o verdadeiro do falso, o reaproveitamento das sobras têxteis jogadas em aterros sanitários, a mão de obra justa daquela que é escrava ou infantil. Quem está lá na loja comprando não sabe a origem do produto e por quais mãos passou. É esse conceito que queremos mudar”, explica.
“Por isso a importância do código no tecido. Se fosse uma marca d’água na malha, poderíamos perder a rastreabilidade, além da facilidade de cópia. Com o código do tecido temos segurança em todo o processo”, complementa.
Segundo ela, participar do Tecnova II foi um divisor de águas. “Sem os recursos do programa não teríamos conseguido chegar onde chegamos. Hoje temos um aplicativo robusto já na loja da Play Store e que está sendo implementado na Apple Store”, acrescenta Micheline.
Outro ponto que atesta a perenidade da ideia é o teste do código no segmento de produtos técnicos, que fornecem tecidos para a fabricação de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). O processo para que o produto esteja em conformidade para proteger o trabalhador da linha de frente, como os que atuam em linhas energizadas ou em plataformas de petróleo, tem alto custo, o que exige controle contra a falsificação.
“Essa é uma linha de produtos em que o acabamento têxtil é muito agressivo. São quase 10 horas de tingimento, depois a mesma quantidade de horas para acabamentos específicos para que ele se torne um tecido antichamas ou anti-arco elétrico. E nós conseguimos implementar dentro do fio têxtil desta linha de produtos o código binário e ele conseguiu chegar ao final intacto”, explica Micheline.
A tecnologia também já começou a ser usada no mercado comum. Há 17 anos no mercado, a Brand Têxtil, de São Paulo, foi a primeira indústria têxtil a ter um tecido em viscose rastreável em todas as etapas. “Essa inovação só foi possível por conta da nossa parceria com a R-Inove. Não existe nada semelhante com essa tecnologia no mercado, o que nos deixou bem empolgados, agregando valor ao nosso produto e demonstrando, mais uma vez, a transparência em nossos processos”, ressaltou Bruna Vianna, responsável pela área de sustentabilidade e exportação da marca.
TECNOVA – O Tecnova Paraná tem como foco estimular e promover a inovação tecnológica em microempresas e empresas de pequeno porte no Estado. Surgiu da união de esforços para promover e incentivar a inovação tecnológica em áreas estratégicas, por meio de mecanismos de cooperação entre o setor público, privado e as instituições de pesquisa e desenvolvimento.
Ele é resultado de uma parceria do Governo do Estado, por meio da Fundação Araucária, com a Finep, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Foram investidos R$ 9,5 milhões no programa para 25 projetos de inovação tecnológica. A terceira edição deve ser lançada pela Fundação Araucária no final de 2023.
“O Tecnova faz parte do Programa Startup Life, iniciado em 2019, e é mais um esforço no sentido de apoiar nossas startups no momento inicial de sua composição, que costuma ser crítico. Entendemos que o sucesso de uma startup resulta em criação de riqueza e bem-estar para nossa população”, afirmou o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação Araucária Luiz Márcio Spinosa.
Governo do Estado investe mais de R$ 2,3 milhões em pesquisas sobre Energias Zero Carbono
O Governo do Estado, por meio da Fundação Araucária e da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), lançou nesta quinta-feira (10), na Universidade Estadual de Maringá (UEM), o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (Napi) Energia Zero Carbono (EZC). O investimento previsto é de cerca de R$ 2,3 milhões.
O novo arranjo constitui uma iniciativa inovadora na qual universidades públicas paranaenses, incubadoras de empresas, parques tecnológicos e empresas de base tecnológicas (startups) se unem com o objetivo de promover o desenvolvimento de produtos e processos que englobem EZC. Integram este arranjo pesquisadores das universidades estaduais de Maringá (UEM), Londrina (UEL) e do Centro-Oeste (Unicentro), das federais do Paraná (UFPR) e Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), além do Instituto Federal do Paraná (IFPR).
O conceito de Energia Zero Carbono está diretamente ligado à geração de energia elétrica sem a emissão de gases que contribuam para a formação do efeito estufa. Zero carbono significa que não há emissão de gás nocivo na atmosfera na exploração de um produto ou serviço. São exemplos de fontes de energias renováveis para produção de eletricidade a eólica ou solar.
Segundo o articulador do Napi, Ivair Santos, professor da UEM, ele pretende ser um polo difusor de uso racional de energia e do relacionamento universidades-empresas para transferência direta de tecnologia e estímulo à inovação, além da formação dos alunos com viés empreendedor. “Com o arranjo vamos incorporar soluções tecnológicas zero carbono a produtos e serviços de empresas paranaenses. O Napi pretende contribuir efetivamente para o processo de transformação energética”, enfatizou.
O secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Aldo Bona, destacou que uma das principais preocupações é gerar resultados práticos para a sociedade. “A inovação só acontece na medida em que a sociedade passa a ter acesso a algo novo produzido pela pesquisa. Estamos trabalhando para ordenar os ativos tecnológicos do Estado para, cada vez mais, produzir resultados que contribuam para o desenvolvimento do Paraná”, comentou.
Para o reitor da UEM, Leandro Vanalli, o novo arranjo contribui para que a universidade esteja mais próxima da sociedade. “Temos feito um grande esforço de estar mais presente na sociedade e este projeto contribui muito para que isso aconteça”, disse.
O diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação Araucária, Luiz Márcio Spinosa, explicou que a maior parte dos recursos são destinados a bolsas de pesquisa em diversos níveis. “Queremos formar novos pesquisadores. O Napi é um novo modelo de fomento. O que propomos é o envolvimento de inteligência e articulação para obter qualidade de vida por meio da ciência”, afirmou.
Segundo a Fundação Araucária, já são 57 Napis em andamento ou construção, envolvendo temas como nanotecnologia, bioinformática, Educação do Futuro e Inteligência Artificial para o Agro.
Informações sobre o Napi podem ser obtidas pelo e-mail napi_ezc@iaraucaria.pr.gov.br.
Passados três anos de atividades, o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (Napi) Taxonline conseguiu reunir e melhorar o acesso a 50 coleções das áreas da Botânica, Zoologia e Microbiologia, apontadas como a sustentação para o desenvolvimento de pesquisas sobre biodiversidade. A Rede Paranaense de Coleções Biológicas reúne, hoje, 18 instituições, entre elas a UEL, representada por coleções microbiológica, zoológica (Museu de Zoologia) e de botânica (Herbário), todas localizadas no Centro de Ciências Biológicas (CCB). Além de melhorar as condições de guarda das coleções, o investimento resultou em uma patente verde, uma transferência de tecnologia e na descrição de pelo menos 20 novas espécies de peixes, borboletas e crustáceos, além do uso de mais de 130 amostras utilizadas para novas espécies vegetais.
Por meio do projeto foram investidos R$ 218 mil, recursos da Fundação Araucária, do Governo do Paraná. As coleções de microbiologia, zoologia e de botânica foram organizadas em plataformas online que permitem a consulta de pesquisadores em qualquer parte do mundo. Todas estão disponíveis em portais especializados como a Rede SpeciesLink, o Sibbr (Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira) e o Gbif (Global Biodiversity Information Facility).
O professor Luciano Panagio, do Laboratório de Micologia Médica e Microbiologia Bucal da UEL, sustenta que a identificação de novas espécies representa um ganho para a sociedade, que se beneficia com pesquisas relacionadas à heterogeneidade biológica. Dessa forma, organizar esse patrimônio genético em uma plataforma online facilita os estudos e democratiza o acesso ao conhecimento. Nesses três anos de atividades, as 18 instituições de pesquisa paranaenses envolvidas no Napi Taxonline identificaram mais de 230 espécies novas de grupos diversos como insetos, bactérias, fungos, plantas, anelídeos, ascídeas e peixes.

A expectativa é de que o projeto possa ser renovado para garantir recursos para bolsistas, aquisição de material de consumo, manutenção predial e de equipamentos. Outra preocupação é quanto à contratação de técnicos especializados para manter as coleções, auxiliar na atividade de catalogação e para receber e enviar materiais.
Para o professor José Eduardo Lahoz, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal (BAV) e responsável pelo Herbário da UEL, as coleções representam um patrimônio institucional, aberto a pesquisadores que necessitam de informações para o desenvolvimento de pesquisas em qualquer lugar do mundo. Esses arquivos são bancos de informações fundamentais sobre a fauna e a flora, inclusive sobre espécies que desapareceram.
Segundo o professor José Birindelli, do mesmo departamento, que coordena o Museu de Zoologia da UEL, o Napi Taxonline é um projeto de destaque em todo o país, uma rede disponibilizada na internet e que reúne 50 coleções. Ele acrescenta que um acervo organizado obedece resoluções ambientais que orientam como devem ser mantidas essas coleções. Além de garantir a conservação, é fundamental que todas as espécies estejam catalogadas, com os registros disponibilizados em rede.

A Coleção Microbiológica da UEL existe desde 2012 e possui um acervo de fungos e bactérias de interesse biotecnológico. Durante a vigência do NAPI Taxonline, a coleção recebeu equipamentos e insumos para isolamento, identificação e armazenamento de microrganismos. Entre os resultados obtidos nesse período estão uma patente verde concedida, uma transferência de tecnologia e a produção de sete dissertações de mestrado, três teses de doutorado e um prêmio concedido pela Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti).
As atividades desenvolvidas junto ao Laboratório de Micologia foram reconhecidas na 1ª edição do Programa de Apoio à Propriedade Intelectual com Foco no Mercado (Prime), em 2021, uma iniciativa da Fundação Araucária, Sebrae/PR e Seti. O professor Admilton Gonçalves de Oliveira Junior, do Departamento de Microbiologia, foi um dos selecionados no Programa, que busca o desenvolvimento econômico e social a partir da transferência dos resultados das pesquisas acadêmicas realizadas nas universidades estaduais.
Já o Herbário da UEL iniciou suas atividades em 1982, como iniciativa pioneira de professores do CCB. Atualmente, existem 55.242 espécies registradas, todas disponibilizadas online. São 6.421 espécies de Angiospermas, Gimnospermas e samambaias, amostras provenientes principalmente do Paraná, mas também coletadas em outros estados brasileiros e países vizinhos. O acervo conta também com 133 amostras que foram utilizadas para a descrição de espécies novas entre 1983 até 2018. Essas amostras são chamadas de Tipos Nomenclaturais e merecem muito cuidado durante a conservação.
Nos últimos três anos a equipe do Museu de Zoologia publicou 61 artigos e conseguiu o feito de descrever oito espécies de peixes (Hypomasticus santanai, Megaleporinus gaiero, Schizodon trifasciatus, Hopliancistrus mundurucu, Hopliancistrus wolverine, Hopliancistrus xikrin, Rhyacoglanis rappdanielae, Rhyacoglanis varii). Também foram descritas cinco espécies de borboletas (Symmachia uiraçu, Symmachia atlântica, Memphis smalli, Alesa negra, Alesa juliae) e sete de crustáceos – Aegla okora, Aegla nebeccana, Aegla jacutinga, Aegla buenoi, Aegla santosi, Aegla nanopedis, Aegla abrupta. Nestes três anos foram depositados 26 mil espécies de peixes, 1,5 mil de crustáceos e 10 mil espécies de borboletas.