De família de comerciantes de origem lusa, bem instalada no Paraná. Seu avô, José Loureiro Fernandes, é um dos fundadores da Associação Comercial do Paraná (1890) e do Clube Curitibano (1881). Nasce em Paranaguá, no dia 12 de março de 1903 e falece em Curitiba, em 16 de fevereiro de 1977. Estuda primeiramente na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1928). Atua como médico até 1958, sendo irmão provedor da Santa Casa de Misericórdia. Fundador do Círculo de Estudos Bandeirantes (1929), é nomeado o primeiro catedrático de Antropologia e Etnografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Paraná (1939). Diretor do Museu Paranaense entre 1936 e 1946, destaca-se ainda na administração da Faculdade como Vice-diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras por duas gestões (1942-45; 1948-51). Elege-se vereador por Curitiba em 1948, mas afasta-se temporariamente do cargo para assumir as funções de Secretário da Cultura do Estado do Paraná, criando em 1948 a Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Paraná – DPHAC. Sua formação científica é renovada por contatos no exterior junto a Paul Rivet e a André Léroi-Gourhan, no Musée de l’Homme, na Paris do início dos anos 1950. Conhecido por seus trabalhos em torno da “cultura popular do Paraná” e da cultura material dos povos originários – em que se destaca seu contato com os Xetá, amplamente documentado por Vladimir Kozák. Atua ainda como presidente da Associação Brasileira de Antropologia entre 1957-9; fundador do Departamento de Antropologia (1959); criador do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (1956) e do Museu de Arqueologia e Artes Populares (1962), atual Museu de Arqueologia e Etnologia (que dirigiu da fundação até 1976). Tem ainda vínculos, como membro, com o Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, bem como, internacionalmente, torna-se fellow do Anthropological Institute e membro da Société des Americanistes. Por fim, destaca-se como formador de museólogos e arqueólogos de expressão nacional, tais como Marília Duarte Nunes e Igor Chmyz.
Em relação às Reuniões Anuais da SBPC na atual UFPR, participou em 1950 (Comissão organizadora), 1953 (Comissão organizadora), 1962 e 1971.
Curadoria, produção textual e identidade visual:
Rafael Faraco Benthien e Samarah Wippel Selski.
Agradecimentos:
Sarah Scholz Dias (por toda a ajuda na produção da identidade visual e pela pesquisa de imagens);
Bruna Marina Portela e Gabriel Bossei (por disponibilizar material do acervo do MAE);
Paulo Guérios (pelo diálogo em torno de Loureiro Fernandes);
Angélica do Carmo Coitinho e Israel Gregório (pelo acesso ao acervo da Unidade de Arquivo e Atividades Auxiliares – UARQ).
Cada vez que um pesquisador atualiza seu currículo na Plataforma Lattes, mesmo que inconscientemente, está rendendo uma homenagem a César Lattes (1924/2005), um dos mais famosos e brilhantes cientistas brasileiros de todos os tempos e que revolucionou o estudo da Física no país. Nós aqui do Paraná Faz Ciência também celebramos a vida e a obra de Lattes, ainda mais por um detalhe que nos enche de orgulho e alegria que é o fato de Cesare Mansueto Giulio Lattes ter nascido em Curitiba, no dia 11 de julho de 1924.
Caso tivesse vivido em nossa época, Lattes não teria deixado o Paraná para buscar seu primeiro diploma, aos 19 anos, no departamento de Física da Faculdade de Filosofia e Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo (USP). O brilhantismo e dinamismo do jovem apaixonado pela física e matemática encantaram professores e pesquisadores da época, que o encaminharam para Londres, sem mestrado ou doutorado, para a carreira promissora e inovadora que, hoje, conhecemos e reverenciamos.
Foi a partir da graduação que se revelou a resiliência, a determinação e o espírito inquieto e curioso que todo cientista carece para inscrever seu nome na história da ciência. Aos 23 anos, já morava e trabalhava em Londres integrando a equipe do Laboratório H. H. Wills, Universidade de Bristol, que era comandado pelo físico Cecil Powell (1903/1969). No final dos anos 1940, César idealizou, em La Paz, na Bolívia, um laboratório de Física Cósmica, onde estudou os raios cósmicos. Em pouco tempo, o espaço se transformou em centro científico internacional, abrigando pesquisadores de quase todos os continentes.



Ali, em Chacaltaya, o paranaense testou a hipótese de suas pesquisas e identificou a partícula responsável pelo comportamento das forças nucleares, batizada méson pi (ou píon). Mesmo sendo autor do primeiro artigo sobre a descoberta, na revista científica Nature, o Prêmio Nobel de Física de 1950 foi concedido a Powell, líder do estudo, segundo regras da época da Academia Sueca de Ciências, Fisiologia e Medicina. Em 1946 e 1948, pesquisas em que Lattes participou também já tinham batido na trave no Nobel. Ao todo, foram sete indicações.
Mesmo sem o prêmio, a comunidade científica internacional reconheceu o feito de Lattes, que não desanimou. Dando prosseguimento aos estudos, ele calculou a massa do méson pi e foi trabalhar em Berkeley, na Califórnia. Nos Estados Unidos, ao lado do seu colega norte-americano Eugene Gardner (1913/1950), Lattes identificou as trajetórias dos píons produzidos no acelerador de partículas da Universidade da Califórnia.
Casado com a matemática pernambucana Martha Siqueira Neto, com quem passou 57 anos e teve quatro filhas, César Lattes decidiu, em 1949, rejeitar um convite para se professor de Física, em Harvard, nos Estados Unidos, e fixou residência no Brasil, alternando sua atuação entre Campinas e Rio de Janeiro. Liderando um renomado grupo de cientistas, seu objetivo era ajudar a recuperar o atraso do país na área da Física, já que não havia grandes institutos de ensino, pesquisa e fomento.

Ainda em 1949, Lattes escreveu em uma carta ao colega José Leite Lopes (1918-2006): “Prefiro ajudar a construir a ciência no Brasil do que ganhar um Nobel”. Nessa época, além de fundar o Centro Brasileiro Pesquisas (CNPq) e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), Lattes chamou Hideki Yukawa para a colaboração Brasil-Japão de Raios Cósmicos (CBJ). O físico japonês foi o vencedor do Nobel de Física, em 1949, pela sua previsão teórica. Assim, Lattes começava a carreira do professor e pesquisador em solo brasileiro.
Para quem deseja conhecer mais detalhes da personalidade e das façanhas deste paranaense, a trajetória de César Lattes está contada em livros, documentários e vídeos, que marcam a relevância dele para o desenvolvimento da ciência no Brasil. De todos os materiais disponíveis na internet, um vídeo publicado no canal do CBPF traz um raro registro de uma palestra de Lattes, no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) com o amigo e pesquisador José Leite Lopes, realizada em 1995.
Ao ouvir e ver como pensava, podemos ter a certeza da importância que fez o CNPq e seus pares ao nomearem, em 1999, de Plataforma Lattes a ferramenta virtual que transformou completamente as atividades de fomento, gestão, planejamento e avaliação do fazer científico no Brasil. Atualmente, o site reúne cerca de sete milhões de currículos e informações de aproximandamente 40 mil grupos de pesquisa.
Hoje, é possível encontrar o nome de César Lattes em bibliotecas, laboratórios e até em ruas, como em Campinas e Rio de Janeiro. No Paraná, Curitiba e Maringá também já o homenagearam. Mesmo sem Nobel, com certeza, Lattes fez muito pela ciência no Brasil, servindo de inspiração para tantos pesquisadores, agora e para sempre.
De tudo, fica apenas a fina ironia do destino: César Lattes morreu em 2005 sem ter montado o próprio ‘Lattes’.



“A História é a mais importante das ciências”. A constatação é do físico Erwin Schrödinger (1887/1961), para quem, sem ela (a história), não saberíamos da ciência, como foi pensada, testada ou aplicada por seus protagonistas. A ideia do teórico austríaco nos ajuda a conhecer e entender a trajetória da vida e o resgate da obra do filósofo e matemático paranaense Newton da Costa.
Nascido em Curitiba, em 1929, Newton Carneiro Affonso da Costa criou do zero o que hoje entendemos como a lógica paraconsistente, teoria original que abriu caminho a uma nova concepção para ver e pensar o mundo, levando em conta as contradições. Ele não apresenta apenas uma, mas uma hierarquia de lógicas, infinitas lógicas paraconsistentes, inscrevendo seu nome na Filosofia da Ciência em grande estilo e inspirando muitos pensadores e pesquisadores a desenvolverem vários desdobramentos da teoria.

O caminho para se tornar uma referência internacional começa ainda em casa, convivendo com pessoas da família e conhecidos que despertaram no jovem o prazer e curiosidade pelas letras e artes. Formou-se em engenharia, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1952, mas ainda estava à procura da verdadeira paixão: a matemática. Para ele, a matemática e a lógica são instrumentos para entender o que é o conhecimento científico. Ao terminar a licenciatura em matemática, virou professor e pesquisador em tempo integral na UFPR, onde concluiu seu doutorado e tornou-se catedrático.

Nos anos 1960, migrou para o Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME/USP) e, depois, passou dois anos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), como professor titular nas duas instituições. Ainda nas décadas de 1960 e 1970, Newton da Costa, primeiro em Curitiba e depois em São Paulo e Campinas, desenvolveu e criou um grupo de pesquisadores que se notabilizaram como grandes lógicos no cenário internacional. A contribuição dele ao sistematizar a paraconsistência é fundamental e muito interessante porque não invalida a lógica tradicional e nem abandona os preceitos clássicos.
Para dar conta de dilemas e paradoxos, a proposta dele foi trabalhar com situações e opiniões contraditórias, ao invés de descartá-las. Para chegar onde queria, Costa quis estudar a fundo a filosofia como forma de distinguir o que é o conhecimento em geral, se há conhecimento metafísico e, por extensão, o científico.
Hoje, passando dos 90 anos, Newton da Costa continua ativo, engajado e profundamente apaixonado pela ciência, sendo reconhecido no Brasil e exterior como autor de uma teoria original criada a partir de 1958, mas muito citada e aplicada de 1976 para frente, quando finalmente ganhou o nome pelo qual ficou conhecida, a lógica paraconsistente. Costa passou a ser reconhecido como o ‘pensador da contradição’.
Graças ao seu trabalho e o reconhecimento da comunidade científica, passou por instituições da Austrália, França, Estados Unidos, Polônia, Itália, Argentina, México e Peru, seja como professor visitante ou pesquisador. Possui mais de 200 trabalhos publicados: artigos, capítulos e livros. Entre outros prêmios, ganhou o Moinho Santista e o Jabuti, em Ciências Exatas.



Com essa pujante trajetória, não é de se admirar que Newton da Costa continue a angariar a admiração e respeito de pesquisadores do mundo inteiro, mais ainda no seu país e, também, no estado de nascimento. É tamanha a importância que o professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, Evandro Gomes, mostrou essa trajetória no livro “Para Além das Colunas de Hércules, uma História da Paraconsistência: de Heráclito a Newton da Costa”, resultado do doutorado em coautoria com a professora Itala Loffredo D’Otaviano, da Unicamp.
“O título do livro alude à criação das lógicas paraconsistentes que se assemelha ao trabalho de Hércules, pois diversos autores, especialmente Newton da Costa, foram além dos limites conhecidos da logicidade, abrindo novos horizontes para a humanidade em sua aventura pelo conhecimento”, destaca Gomes em entrevista ao site Conexão Ciência.
O professor da UEM conviveu com o Newton da Costa de 1997 a 2003, período em que fez mestrado na USP. Segundo a pesquisa, o primeiro sistema lógico paraconsistente é apresentado pelo polonês Stanisław Jaśkowski (1906-1965), em 1948. Ele que foi, de fato, o primeiro a formular claramente a ideia da lógica paraconsistente, mas foi Newton da Costa, trabalhando com discípulos de Jaśkowski, quem sistematizou definitivamente as teorias do colega polonês, nos anos 1960 e 1970, ajudando-o a desenhar o pensamento proposto.
O livro, que, às vezes, pode ser confundido com um título sobre mitologia grega, recebeu Menção Honrosa no Prêmio Abeu 2018 e foi finalista, na categoria Ensaio Humanidades, do Prêmio Jabuti 2018.
Para nós do Paraná Faz Ciência, é uma grande honra registrar e reverenciar a trajetória de vida de Newton da Costa, que continua a arrebatar corações e mentes de pesquisadores da mesma forma como fazia há 60 anos. Para além da sua obra, a paixão pela ciência é o seu legado mais inspirador.