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II WORKDHOP DO NAPI PARANÁ FAZ CIÊNCIA

Na semana em que se comemora o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, integrantes dos Clubes de Ciência do Paraná Faz Ciência participam do “Meninas nas Exatas”, na UFPR

Sete meninas adolescentes e uma professora posam em pé ao lado de um banner do evento “Meninas nas Exatas”, no Campus Politécnico da UFPR. Elas usam crachás e camisetas do clube, em ambiente interno da universidade.
Integrantes do Clube Little Scientist participaram do evento com oficina de minifoguetes. (Foto/Valentina Kobus)

Banners coloridos, experimentos em funcionamento e atividades práticas movimentaram o Campus Politécnico da UFPR durante o “Meninas nas Exatas”. As meninas, no entanto, não estavam ali apenas como visitantes. Parte delas assumiu a condução das atividades: explicaram dados, orientaram colegas e responderam às perguntas do público. Entre as participantes estavam integrantes dos Clubes de Ciência do Paraná Faz Ciência, que sustentaram suas pesquisas e compartilharam os resultados do que produzem nos clubes.

A participação no evento, realizado em 11 de fevereiro, marcou não apenas a presença dessas estudantes na universidade pública, mas a consolidação de um percurso construído dentro dos clubes. Ao longo do dia, alguns grupos visitaram laboratórios e acompanharam oficinas; outros apresentaram investigações desenvolvidas nos clubes e conduziram atividades para colegas de diferentes instituições. A universidade, nesse contexto, deixou de ser apenas espaço de visita e se tornou ambiente de troca e produção.

A experiência repercutiu diretamente na maneira como as meninas passaram a se enxergar dentro das áreas científicas. A clubista Milena Formankuevisky, de 15 anos, integrante do Clube de Meninas Sônia Guimarães, que já manifesta interesse por engenharia mecânica, contou que nunca se sentiu particularmente próxima da física. Durante o evento, ao acompanhar uma apresentação envolvendo luz ultravioleta e infravermelha e observar um experimento elétrico que reagia ao toque dos dedos, passou a reconsiderar essa distância. “Eu não sou muito fã de física, mas uma das apresentações me fez olhar diferente para a área. Me interessou bastante.” O contato direto com os experimentos ampliou referências e alterou sua percepção sobre a própria trajetória.

Milena Formankuevisky (ao centro) participou das atividades no Campus Politécnico e afirma que a experiência no “Meninas nas Exatas” ampliou sua percepção sobre as áreas científicas. (Foto/Valentina Kobus)

Para Milena, participar do “Meninas nas Exatas” também fortaleceu a convicção sobre o próprio lugar na educação pública. Ao circular pelos espaços da universidade e interagir com pesquisadoras e estudantes de graduação, ela afirmou que a trajetória acadêmica não estava determinada pela origem escolar. “Muitos dizem que escola particular tem mais oportunidade. Mas eu acredito que não importa se você é de escola pública ou privada. Você pode chegar longe, independente de onde vem.” A experiência no campus reforçou, segundo ela, a ideia de que a universidade pública também poderia ser um caminho possível para estudantes como ela, da rede estadual.

Além de visitar, algumas meninas apresentaram suas próprias investigações. No estande do Clube de Ciência Nise da Silveira, duas estudantes compartilharam uma pesquisa sobre tédio e solidão associados ao tempo de tela no celular. O trabalho reuniu levantamento de dados, organização de informações e análise de comportamentos relacionados ao uso intenso de dispositivos móveis entre jovens. A pesquisa despertou interesse de quem circulou pelo evento.

Integrantes do Clube de Ciência Nise da Silveira apresentaram pesquisa sobre tédio e solidão associados ao tempo de tela. (Foto/Arquivo)

Ao ouvir a explicação das estudantes, Miriam Valentim de Oliveira, que atua na área de engenharia de software e acompanhou a feira naquele dia, destacou a consistência do trabalho apresentado. “Vim ouvir aqui a pesquisa sobre tédio e solidão no tempo de telas com celular e achei incrível a pesquisa das duas meninas. Elas fizeram um trabalho maravilhoso, com muitos dados riquíssimos. Tem muitos dados ainda a serem explorados e é um contexto muito rico de pesquisa.” O reconhecimento externo reforçou a seriedade da investigação desenvolvida no clube e evidenciou que as produções dialogaram com temas contemporâneos relevantes, que ultrapassaram o espaço escolar.

A participação no evento não ocorreu de maneira isolada. Ela foi resultado de um processo contínuo construído no interior das escolas. A professora Karin Schellmann, coordenadora do Clube Sônia Guimarães, do Colégio Estadual Paulo Leminski, relembrou que, quando estava no ensino médio, teve acesso à universidade por meio de um curso de extensão e conviveu com pesquisadoras que realizavam investigações científicas. Essa vivência marcou sua trajetória e orienta sua atuação atual. Ao integrar o colégio à Rede de Clubes de Ciência, procurou oferecer às alunas experiências semelhantes, ampliando horizontes e fortalecendo expectativas acadêmicas.

O Clube de Meninas na Ciência Sônia Guimarães passou o dia participando das atividades e trocando experiências. (Foto/Valentina Kobus)

Segundo Karin, o clube começou com sete integrantes e atualmente reúne 16 alunas, além de contar com um espaço próprio na escola para reuniões e desenvolvimento de projetos. A existência desse ambiente favoreceu a continuidade das atividades e contribuiu para a construção de uma identidade coletiva vinculada à pesquisa. “Ser menina, ser mulher não é empecilho para nada”, afirmou. “Eu digo para elas: vão, façam, tentem. Quem impede o sonho é você mesma.” A fala sintetizou uma orientação que se traduziu em incentivo constante à participação em feiras, visitas técnicas e eventos científicos.

Orientação e experimentação marcaram as atividades práticas desenvolvidas durante o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência. (Foto/Valentina Kobus)

O impacto do clube também se estendeu ao corpo docente da escola. Ainda de acordo com Karin, professores que antes se sentiam distantes da pesquisa, após anos dedicados exclusivamente à sala de aula, passaram a demonstrar interesse em se reaproximar desse universo. Alguns se ofereceram para colaborar com as atividades do clube e ministrar oficinas, contribuindo com suas próprias experiências e conhecimentos. O movimento fortaleceu, dentro da própria escola, uma cultura de valorização da investigação científica.

Nesse contexto, o “Meninas nas Exatas” assumiu um significado que foi além da programação de uma data simbólica. Ao circular pelos corredores da universidade ou apresentar seus próprios dados ao público, as estudantes deixaram de se perceber apenas como visitantes ocasionais e passaram a se reconhecer como possíveis futuras integrantes daquele espaço acadêmico. A universidade pública, antes vista como distante por muitas, tornou-se concreta e acessível. Essa vivência, construída entre pesquisa, orientação docente e experiências acumuladas, contribuiu para que a ciência passasse a integrar de forma mais consistente os projetos de futuro dessas meninas.

Imersão do programa Futuras Cientistas aproxima meninas da universidade e fortalece o aprendizado científico coletivo no Paraná

Participantes da imersão do programa Futuras Cientistas durante atividade em laboratório no campus da UFPR em Palotina (Foto/Rocket Girls)

“A conquista de uma é a conquista de todas.”

A frase emerge da experiência vivida por meninas de diferentes cidades do Paraná durante a imersão proporcionada pelo programa Futuras Cientistas, no mês de janeiro de 2026. Ao longo de uma semana, a convivência intensa, os desafios compartilhados e o contato com a rotina universitária reorganizaram a forma como o aprendizado científico se constrói. Com um relato dessa experiência, o C² comemora o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência em 11 de fevereiro. 

A etapa presencial do programa Futuras Cientistas, no Paraná, foi organizada pelo Rocket Girls: Meninas nas Ciências, projeto de extensão do Setor Palotina, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), voltado à aproximação de meninas da educação básica com o ambiente universitário. Após semanas de atividades on-line, o encontro presencial ocorreu no campus da UFPR, em Palotina.

Ao todo, 26 participantes de diferentes regiões do Paraná integraram a terceira edição da imersão no estado. Para algumas delas, chegar até Palotina significou viagens de até doze horas, um deslocamento que faz parte da própria proposta formativa da iniciativa. Ao compartilhar alojamento, rotinas e atividades acadêmicas, as meninas passaram a vivenciar a universidade não como visita, mas como experiência cotidiana.

“O fato de você saber que não está sozinha, saber que existem outras meninas, de tantos lugares, que também querem estar ali, é incrível”, conta Elisa Namie Lopes Guimarães, do clube Little Scientist.

Entre oficinas de confecção e lançamento de minifoguetes, atividades em laboratórios e momentos de convivência, a formação também se deu no encontro entre as meninas. Para as participantes, estar em um espaço onde outras jovens compartilham interesses semelhantes transforma a forma de aprender e de se perceber na ciência.

Ao longo da imersão, essa vivência coletiva também tensiona imagens cristalizadas sobre quem pode ocupar o lugar da ciência. Longe do estereótipo do cientista solitário, masculino ou associado à genialidade excêntrica, as participantes circulam pelos laboratórios sendo quem são: adolescentes que usam maquiagem, acessórios, unhas coloridas e roupas que expressam sua identidade. 

Nesse contexto, aprender ciência não exige apagar traços pessoais ou assumir um personagem, mas reconhecer que o fazer científico comporta múltiplas formas de existir. A aproximação com a universidade, nesse cenário, também passa por desnaturalizar modelos restritos de cientistas e ampliar as possibilidades de identificação.

Assim, a dinâmica construída entre as jovens desafia uma lógica frequentemente associada à formação científica, marcada pela comparação de desempenhos e pela competição. No convívio diário, o aprendizado se fortalece justamente quando é compartilhado: ideias circulam, se conectam e ganham novas formas a partir do diálogo e do afeto. Nesse ambiente, o avanço de uma participante não é visto como parâmetro de disputa, mas como referência possível, capaz de ampliar a confiança das demais. A vivência revela que aprender ciência envolve reconhecer o esforço coletivo, compreender o erro como parte do processo e perceber que trajetórias semelhantes tornam o caminho mais acessível.

Durante a imersão do programa Futuras Cientistas, meninas participam de oficina de produção e lançamento de minifoguetes com sementes, unindo experimentação científica e ações voltadas ao reflorestamento (Foto/Rocket Girls)

Na prática, esse aprendizado se construiu em atividades realizadas nos laboratórios e nas oficinas ao longo da semana. As participantes entraram em contato com procedimentos, instrumentos e métodos que fazem parte da rotina universitária, formulando perguntas, testando hipóteses e trabalhando em grupo. O foco esteve menos na memorização de conteúdos e mais na vivência dos processos que estruturam a produção científica.

Para as estudantes, esse movimento não termina com o fim da imersão. “Depois que a gente volta, dá vontade de aplicar tudo o que aprendeu e mostrar para outras meninas que elas também conseguem fazer ciência”, afirma Giovanna Cristina de Pontes Chagas, 16 anos, que participou da imersão em 2025. Ela não integrou a edição presencial neste ano, porque a data coincidiu com seu retorno do intercâmbio realizado na Inglaterra, pelo programa Ganhando o Mundo. A experiência obtida amplia a confiança para ocupar espaços que antes pareciam distantes e reforça a ideia de que aprender ciência é um processo contínuo.

Do ponto de vista de quem acompanha as alunas, os efeitos da imersão também são evidentes. Para a professora Suelem Martins, coordenadora do clube Foguete Girls no Colégio Estadual Antônio Carlos Gomes, em Terra Roxa (PR), que acompanhou alunas pelo segundo ano consecutivo, a imersão provoca deslocamentos importantes. “É sair da zona de conforto. Mesmo com a saudade da família, o desejo de aprender se sobressai, e isso gera maturidade”, afirma.

Ao reunir participantes de diferentes territórios e trajetórias em um mesmo espaço formativo, a imersão possibilitou que as trocas fossem ampliadas e fortaleceu ainda mais o aprendizado coletivo. Segundo a docente, essa vivência não se encerra na universidade. “Esse aprendizado retorna para a escola em forma de clube de ciências”,defende.

Essas descobertas, no entanto, não se restringem às estudantes. Suelem conta que participar da imersão significou, também para ela, viver uma primeira vez. “Foi a primeira vez que dormi em alojamento. No meu período escolar, meus pais nunca permitiram esse tipo de vivência”, relata. Dividir esse momento com as alunas, segundo a professora, reforça a ideia de que a formação científica também envolve autonomia, convivência e descoberta e que essas experiências não têm idade para acontecer.

Em diálogo com o Dia Internacional de Meninas e Mulheres na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, a imersão ganha novos sentidos. Ao atravessarem os portões da universidade, essas meninas e jovens mulheres não apenas acessam laboratórios e métodos científicos, mas passam a se reconhecer como parte desse espaço e a construir, juntas, novos caminhos possíveis.

Clube dedicado ao público feminino marca simbolicamente a trajetória da escola e estimula jovens a vivenciarem a cultura científica

No Instituto de Educação Erasmo Pilotto, o clube dedicado ao público feminino fortalece autonomia, pertencimento e futuro

O Instituto de Educação Erasmo Pilotto, em Curitiba, integra a Rede de Clubes Meninas Paraná Faz Ciência, iniciativa estadual que reúne 45 instituições da rede pública para incentivar a participação de meninas e mulheres em ambientes científicos e fortalecer sua permanência em carreiras da área. 

Segundo a professora coordenadora do clube, Camila Cristina Ferreira da Costa, essa presença transforma o cotidiano escolar e amplia horizontes. “O projeto abre horizontes, traz a cultura científica para a escola. As meninas e mulheres desenvolvem autonomia, conhecimento do método científico e pensamento crítico”, conta.

A diretora Márcia Murbach reforça que a existência de um clube voltado às meninas em uma escola com quase 150 anos de história tem forte significado simbólico. O Instituto, que já foi exclusivamente feminino, contou com apenas sete mulheres na direção ao longo desse período — incluindo a atual. Para ela, abrir um espaço institucionalizado para o diálogo entre ciência e protagonismo feminino reafirma essa trajetória.

“É a primeira vez que a gente tem um clube de meninas pensando em ciência. A escola vai fazer 150 anos, e isso é muito significativo. Ter um espaço aberto para o feminino dialogar com a ciência, se aproximar de um mundo que foi por muito tempo masculino, é muito bonito”, afirma.

Márcia Murbach, diretora da instituição (ao centro) fala da importância do clube na escola (Foto/Marilaine Martins)

A presença de mulheres cientistas na escola também tem impacto direto na construção de referências para as estudantes. “As meninas na ciência são capazes. Mostrar que elas têm representatividade, que estão vendo outra professora cientista envolvida com elas…isso abre portas para outros momentos femininos dentro da escola”, destaca Márcia.

A coordenadora Camila observa que essa transformação aparece tanto no desenvolvimento pessoal quanto no interesse acadêmico das alunas. “O clube é importante no nível individual, mas desperta também o interesse pelas áreas das ciências da natureza e exatas, promovendo protagonismo juvenil e enriquecendo a formação escolar.”

Rede estadual colaborativa e impacto para novas gerações

A Rede Meninas Paraná Faz Ciência articula escolas que desenvolvem projetos interdisciplinares, colaborativos e interinstitucionais, fortalecendo a inserção de meninas e mulheres em diferentes campos da ciência desde a Educação Básica. 

Para Camila, esse trabalho também gera efeitos coletivos. “No âmbito social, buscamos popularização e divulgação científica, trazendo o protagonismo para as meninas e mulheres, e outras minorias”, explica. No Instituto de Educação, essa cultura científica já alcança estudantes mais jovens. E a diretora avalia que o impacto tende a se multiplicar ao longo dos próximos anos. “Isso vai abrir portas para as [alunas] que estão chegando no sexto ano. Ter esse poder feminino representado e dialogar com o espaço da ciência é essencial. Pensar a ciência como um local de pesquisa independente do gênero é a parte mais importante”, afirma.