Inspirados em Nise da Silveira, alunos de Curitiba articulam criatividade e ciência para falar de saúde mental e cidadania

Em Curitiba, um grupo de estudantes está provando que o laboratório de um cientista pode ser, também, um ateliê de arte ou um palco de teatro. O Clube de Ciências Arte, Cultura e Saúde Mental, do Colégio Estadual Rodolpho Zaninelli, sob a coordenação da professora Fabiane Helene Valmore, tem se destacado por investigar a saúde mental pelas lentes das Ciências Sociais e Humanas.
O projeto nasceu da necessidade de fortalecer a iniciação científica e a formação cidadã, olhando para as demandas reais da comunidade escolar. Mais do que estudar teorias, os alunos buscam compreender como a arte e a cultura podem ressignificar o sofrimento psíquico, valorizando as experiências subjetivas de cada integrante.
Uma das bases de trabalho do clube é o estudo sobre tratamento humanizado em questões de saúde mental, inspirado no legado da médica Nise da Silveira. Seguindo os passos da psiquiatra que revolucionou a saúde mental no Brasil – usando a arte como instrumento –, os clubistas usam desenhos, pinturas e artes cênicas como ferramentas de investigação e de solução para problemas locais.
Para aprofundar essa jornada, o clube recebeu, em março, a visita da professora Claudia Gruber. Em uma roda de conversa sobre pesquisa e processo criativo, ela apresentou os temas das agendas físicas da APP-Sindicato, utilizadas como instrumento de registro e reflexão. Elaboradas a partir de investigações no campo das ciências humanas, esses exemplares resultam de um processo de construção que articula literatura, arte e história. Para os clubistas, um exemplo de diálogo interdisciplinar que pode se materializar em produções autorais ou educativas, por exemplo.
Foram apresentadas aos alunos quatro exemplares, cada um com uma personalidade e sua obra retratada, entre os anos 2023 e 2026. Em 2023, o exemplar foi sobre Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora que trouxe a voz da periferia para o debate público e é reconhecida como uma das vozes mais contundentes da literatura brasileira. Em 2024, a publicação foi sobre o legado de Dona Ivone Lara (2024), que além de sambista pioneira na escola Império Serrano, foi também enfermeira e assistente social, trabalhando com saúde mental ao lado de Nise da Silveira, no bairro de o Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, local do antigo hospital psiquiátrico onde atuou a médica.
Já em 2025, a agenda institucional apresentou o filme Bicho de Sete Cabeças (2001), estrelado por Rodrigo Santoro e é considerado um marco da crítica ao sistema manicomial brasileiro. Foi inspirado no relato autobiográfico do escritor curitibano Austregésilo Carrano Bueno (1957- 2008). O filme retrata o tratamento brutal dado a um jovem internado à força por uso de drogas e os maus tratos sofridos enquanto paciente. E em 2026, a agenda atual apresenta o teatro e identidade brasileira a partir da obra O Auto da Compadecida (1955), do escritor e poeta paraibano Ariano Suassuna (1927–2014). A obra une comédia, crítica social, elementos da religiosidade e é ambientada no sertão nordestino.
A análise das agendas e seus temas permitiu aos alunos navegarem por temas da realidade brasileira e os conectarem à pesquisa do próprio grupo: arte, cultura e saúde mental, além das práticas ligadas à médica Nise da Silveira.
O encontro teve a participação de Neusa Nogas Tocha, representante da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), que acompanha o clube desde sua fundação em 2024. Segundo Neusa, essas trocas são fundamentais para enriquecer o repertório dos alunos e elevar a qualidade das produções científicas e artísticas do grupo.
Para a coordenadora do clube, Fabiane Valmore, o projeto do clube busca romper com o estereótipo do cientista isolado. “A ciência não está apenas nos laboratórios, no uso de jalecos brancos, mas também nas ciências sociais e humanas. Quando trazemos os conteúdos das agendas para o clube em diálogo com a história e a realidade brasileira, oferecemos aos clubistas o entendimento de que o trabalho de pesquisa, os recortes socioculturais e políticos são imprescindíveis no processo de pesquisa. Como também para o entendimento crítico do mundo, envolvendo arte e cultura como expressões e potência de vida”, defende.
Acompanhe o perfil no Instagram do clube, o @clubedecienciasnise_cerz para saber mais sobre suas atividades. E sobre os Clubes de Ciências, pelo Instagram da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência @clubesparanafazciencia e pelo site Paraná Faz Ciência