Imersão do programa Futuras Cientistas aproxima meninas da universidade e fortalece o aprendizado científico coletivo no Paraná

“A conquista de uma é a conquista de todas.”
A frase emerge da experiência vivida por meninas de diferentes cidades do Paraná durante a imersão proporcionada pelo programa Futuras Cientistas, no mês de janeiro de 2026. Ao longo de uma semana, a convivência intensa, os desafios compartilhados e o contato com a rotina universitária reorganizaram a forma como o aprendizado científico se constrói. Com um relato dessa experiência, o C² comemora o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência em 11 de fevereiro.
A etapa presencial do programa Futuras Cientistas, no Paraná, foi organizada pelo Rocket Girls: Meninas nas Ciências, projeto de extensão do Setor Palotina, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), voltado à aproximação de meninas da educação básica com o ambiente universitário. Após semanas de atividades on-line, o encontro presencial ocorreu no campus da UFPR, em Palotina.
Ao todo, 26 participantes de diferentes regiões do Paraná integraram a terceira edição da imersão no estado. Para algumas delas, chegar até Palotina significou viagens de até doze horas, um deslocamento que faz parte da própria proposta formativa da iniciativa. Ao compartilhar alojamento, rotinas e atividades acadêmicas, as meninas passaram a vivenciar a universidade não como visita, mas como experiência cotidiana.
“O fato de você saber que não está sozinha, saber que existem outras meninas, de tantos lugares, que também querem estar ali, é incrível”, conta Elisa Namie Lopes Guimarães, do clube Little Scientist.
Entre oficinas de confecção e lançamento de minifoguetes, atividades em laboratórios e momentos de convivência, a formação também se deu no encontro entre as meninas. Para as participantes, estar em um espaço onde outras jovens compartilham interesses semelhantes transforma a forma de aprender e de se perceber na ciência.
Ao longo da imersão, essa vivência coletiva também tensiona imagens cristalizadas sobre quem pode ocupar o lugar da ciência. Longe do estereótipo do cientista solitário, masculino ou associado à genialidade excêntrica, as participantes circulam pelos laboratórios sendo quem são: adolescentes que usam maquiagem, acessórios, unhas coloridas e roupas que expressam sua identidade.
Nesse contexto, aprender ciência não exige apagar traços pessoais ou assumir um personagem, mas reconhecer que o fazer científico comporta múltiplas formas de existir. A aproximação com a universidade, nesse cenário, também passa por desnaturalizar modelos restritos de cientistas e ampliar as possibilidades de identificação.
Para além das oficinas e dos laboratórios, a imersão foi marcada por momentos de convivência e afeto que integram o processo formativo das participantes (Foto/Rocket Girls) Para além das oficinas e dos laboratórios, a imersão foi marcada por momentos de convivência e afeto que integram o processo formativo das participantes (Foto/Rocket Girls) Para além das oficinas e dos laboratórios, a imersão foi marcada por momentos de convivência e afeto que integram o processo formativo das participantes (Foto/Rocket Girls) Para além das oficinas e dos laboratórios, a imersão foi marcada por momentos de convivência e afeto que integram o processo formativo das participantes (Foto/Rocket Girls) Para além das oficinas e dos laboratórios, a imersão foi marcada por momentos de convivência e afeto que integram o processo formativo das participantes (Foto/Rocket Girls)
Assim, a dinâmica construída entre as jovens desafia uma lógica frequentemente associada à formação científica, marcada pela comparação de desempenhos e pela competição. No convívio diário, o aprendizado se fortalece justamente quando é compartilhado: ideias circulam, se conectam e ganham novas formas a partir do diálogo e do afeto. Nesse ambiente, o avanço de uma participante não é visto como parâmetro de disputa, mas como referência possível, capaz de ampliar a confiança das demais. A vivência revela que aprender ciência envolve reconhecer o esforço coletivo, compreender o erro como parte do processo e perceber que trajetórias semelhantes tornam o caminho mais acessível.

Na prática, esse aprendizado se construiu em atividades realizadas nos laboratórios e nas oficinas ao longo da semana. As participantes entraram em contato com procedimentos, instrumentos e métodos que fazem parte da rotina universitária, formulando perguntas, testando hipóteses e trabalhando em grupo. O foco esteve menos na memorização de conteúdos e mais na vivência dos processos que estruturam a produção científica.
Para as estudantes, esse movimento não termina com o fim da imersão. “Depois que a gente volta, dá vontade de aplicar tudo o que aprendeu e mostrar para outras meninas que elas também conseguem fazer ciência”, afirma Giovanna Cristina de Pontes Chagas, 16 anos, que participou da imersão em 2025. Ela não integrou a edição presencial neste ano, porque a data coincidiu com seu retorno do intercâmbio realizado na Inglaterra, pelo programa Ganhando o Mundo. A experiência obtida amplia a confiança para ocupar espaços que antes pareciam distantes e reforça a ideia de que aprender ciência é um processo contínuo.
Do ponto de vista de quem acompanha as alunas, os efeitos da imersão também são evidentes. Para a professora Suelem Martins, coordenadora do clube Foguete Girls no Colégio Estadual Antônio Carlos Gomes, em Terra Roxa (PR), que acompanhou alunas pelo segundo ano consecutivo, a imersão provoca deslocamentos importantes. “É sair da zona de conforto. Mesmo com a saudade da família, o desejo de aprender se sobressai, e isso gera maturidade”, afirma.
Ao reunir participantes de diferentes territórios e trajetórias em um mesmo espaço formativo, a imersão possibilitou que as trocas fossem ampliadas e fortaleceu ainda mais o aprendizado coletivo. Segundo a docente, essa vivência não se encerra na universidade. “Esse aprendizado retorna para a escola em forma de clube de ciências”,defende.
Essas descobertas, no entanto, não se restringem às estudantes. Suelem conta que participar da imersão significou, também para ela, viver uma primeira vez. “Foi a primeira vez que dormi em alojamento. No meu período escolar, meus pais nunca permitiram esse tipo de vivência”, relata. Dividir esse momento com as alunas, segundo a professora, reforça a ideia de que a formação científica também envolve autonomia, convivência e descoberta e que essas experiências não têm idade para acontecer.
Em diálogo com o Dia Internacional de Meninas e Mulheres na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, a imersão ganha novos sentidos. Ao atravessarem os portões da universidade, essas meninas e jovens mulheres não apenas acessam laboratórios e métodos científicos, mas passam a se reconhecer como parte desse espaço e a construir, juntas, novos caminhos possíveis.




