Estudantes do Clube de Ciências desenvolveram estudos que unem saber popular e alfabetização científica

Entre receitas de chás, memórias compartilhadas e experimentos científicos, estudantes do Colégio Estadual Duque de Caxias, município de Santo Antônio do Caiuá, no noroeste do Paraná, estão mostrando como o conhecimento tradicional pode dialogar com a ciência contemporânea. O projeto “Bioessence”, desenvolvido por um Clube de Ciências local, será apresentado durante o 4º Encontro Nacional de Ensino de Ciências por Investigação, realizado em maio na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória (ES).
A iniciativa nasceu da observação de uma prática comum na comunidade: o uso cotidiano de plantas medicinais pelas famílias da região. Localizado às margens do Rio Paranapanema, na divisa com o estado de São Paulo, Santo Antônio do Caiuá possui cerca de 3 mil habitantes e está distante dos grandes centros urbanos. Paranavaí, a cidade de maior porte mais próxima, fica a aproximadamente 70 quilômetros.
Segundo a professora Shalimar Zanatta, da Unespar de Paranavaí, que acompanha o projeto no Clube de Ciências Bioessence, a pesquisa surgiu justamente dessa relação histórica da comunidade com os saberes populares. “Pela ampla utilização de plantas medicinais pela comunidade. É uma região agrícola e mais isolada, então esse conhecimento sempre esteve muito presente no cotidiano das famílias”, explica.
A pesquisa de campo foi realizada pelos próprios estudantes junto a vizinhos, familiares e pessoas idosas da cidade. As entrevistas reuniram relatos sobre o uso tradicional de ervas medicinais, modos de preparo e indicações terapêuticas transmitidas entre gerações, especialmente por avós e benzedeiras.

Mas o trabalho não ficou apenas no levantamento oral, o diferencial do projeto foi transformar esse repertório popular em objeto de investigação científica. Os estudantes passaram a pesquisar propriedades biológicas das plantas citadas, realizar testes e relacionar os conhecimentos tradicionais a conceitos científicos, promovendo um diálogo entre diferentes formas de compreender a saúde e o cuidado.
Esse processo se conecta diretamente aos princípios da alfabetização científica, ao estimular a curiosidade, a investigação, a formulação de hipóteses e a interpretação crítica de informações. Ao mesmo tempo, aproxima os estudantes da realidade local, mostrando que a ciência também pode nascer das experiências da comunidade.
Os Clubes de Ciências, viabilizados pelo programa NAPI Paraná Faz Ciência, têm justamente esse papel de ampliar os espaços de educação não-formal e incentivar práticas investigativas dentro e fora da escola. Nesses ambientes, os estudantes assumem protagonismo na produção do conhecimento, articulando teoria, pesquisa e vivências sociais.

Além dos resultados acadêmicos, o projeto também produziu impactos sociais importantes. As receitas e saberes reunidos deram origem a um livro colaborativo, lançado em um evento de autógrafos que reuniu as mulheres participantes da pesquisa.
Para a professora Shalimar, um dos momentos mais marcantes foi perceber a transformação na autoestima das idosas envolvidas. “Foi gratificante porque percebemos a autoestima delas melhorar. Elas puderam falar sobre seus conhecimentos e compartilhar isso em um livro. No dia do lançamento, vestiram a melhor roupa, conversaram muito e não queriam ir embora”, relembra.

O projeto também reforça debates importantes sobre saúde pública e valorização da medicina tradicional. Desde 2006, o Sistema Único de Saúde (SUS) reconhece oficialmente práticas integrativas e o uso de plantas medicinais como parte das políticas nacionais de cuidado. Nesse contexto, iniciativas como o Bioessence fortalecem a preservação de saberes ancestrais e promovem a aproximação entre ciência, cultura e comunidade.
Ao levar o trabalho para um encontro nacional de ensino de ciências, os estudantes de Santo Antônio do Caiuá demonstram que a produção científica também pode florescer em pequenas cidades do interior — especialmente quando nasce do encontro entre memória, território e investigação.