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II WORKDHOP DO NAPI PARANÁ FAZ CIÊNCIA

Clube de Ciências de Santo Antônio do Caiuá (PR) leva pesquisa para evento nacional

Por: Adriana Possan

Estudantes do Clube de Ciências desenvolveram estudos que unem saber popular e alfabetização científica

Fotografia em ambiente interno mostra um grupo de cerca de 30 pessoas reunidas em uma sala ampla e iluminada. A maioria são mulheres idosas, acompanhadas por alguns homens e pessoas mais jovens. Parte do grupo está sentada em cadeiras organizadas em semicírculo, enquanto outras pessoas permanecem em pé ao fundo. As participantes usam roupas coloridas e casuais, com vestidos estampados, blusas vermelhas, verdes e pretas. Algumas sorriem para a câmera. O clima da imagem transmite acolhimento, convivência e encontro comunitário. O espaço possui paredes claras, janelas grandes nas laterais e cartazes afixados. À direita, um cartaz escrito “FALTAM 4 DIAS PARA O ENEB” aparece na parede. Na frente da foto há mesas brancas vazias. No canto inferior esquerdo aparece a marca d’água da câmera do celular, e no canto inferior direito a data e horário do registro: 23 de outubro de 2025, às 14h49.
Projeto Bioessence mostra que a alfabetização científica também nasce do território, da escuta e dos saberes populares, fortalecendo vínculos entre escola, comunidade e gerações (Foto/Arquivo Pessoal)

Entre receitas de chás, memórias compartilhadas e experimentos científicos, estudantes do Colégio Estadual Duque de Caxias, município de Santo Antônio do Caiuá, no noroeste do Paraná, estão mostrando como o conhecimento tradicional pode dialogar com a ciência contemporânea. O projeto “Bioessence”, desenvolvido por um Clube de Ciências local, será apresentado durante o 4º Encontro Nacional de Ensino de Ciências por Investigação, realizado em maio na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória (ES).

A iniciativa nasceu da observação de uma prática comum na comunidade: o uso cotidiano de plantas medicinais pelas famílias da região. Localizado às margens do Rio Paranapanema, na divisa com o estado de São Paulo, Santo Antônio do Caiuá possui cerca de 3 mil habitantes e está distante dos grandes centros urbanos. Paranavaí, a cidade de maior porte mais próxima, fica a aproximadamente 70 quilômetros.

Segundo a professora Shalimar Zanatta, da Unespar de Paranavaí, que acompanha o projeto no Clube de Ciências Bioessence, a pesquisa surgiu justamente dessa relação histórica da comunidade com os saberes populares. “Pela ampla utilização de plantas medicinais pela comunidade. É uma região agrícola e mais isolada, então esse conhecimento sempre esteve muito presente no cotidiano das famílias”, explica.

A pesquisa de campo foi realizada pelos próprios estudantes junto a vizinhos, familiares e pessoas idosas da cidade. As entrevistas reuniram relatos sobre o uso tradicional de ervas medicinais, modos de preparo e indicações terapêuticas transmitidas entre gerações, especialmente por avós e benzedeiras.

De caderno na mão e escuta no coração, estudantes percorrem quintais, varandas e memórias para relacionar saberes populares com métodos da ciência (Foto/Arquivo Pessoal)

Mas o trabalho não ficou apenas no levantamento oral, o diferencial do projeto foi transformar esse repertório popular em objeto de investigação científica. Os estudantes passaram a pesquisar propriedades biológicas das plantas citadas, realizar testes e relacionar os conhecimentos tradicionais a conceitos científicos, promovendo um diálogo entre diferentes formas de compreender a saúde e o cuidado.

Esse processo se conecta diretamente aos princípios da alfabetização científica, ao estimular a curiosidade, a investigação, a formulação de hipóteses e a interpretação crítica de informações. Ao mesmo tempo, aproxima os estudantes da realidade local, mostrando que a ciência também pode nascer das experiências da comunidade.

Os Clubes de Ciências, viabilizados pelo programa NAPI Paraná Faz Ciência, têm justamente esse papel de ampliar os espaços de educação não-formal e incentivar práticas investigativas dentro e fora da escola. Nesses ambientes, os estudantes assumem protagonismo na produção do conhecimento, articulando teoria, pesquisa e vivências sociais.

O Bioessence fortaleceu encontros entre gerações e mostrou que os saberes tradicionais guardados na memória das mais velhas são verdadeiros patrimônios vivos, cheios de cuidado, história e conhecimento (Foto/Arquivo Pessoal)

Além dos resultados acadêmicos, o projeto também produziu impactos sociais importantes. As receitas e saberes reunidos deram origem a um livro colaborativo, lançado em um evento de autógrafos que reuniu as mulheres participantes da pesquisa.

Para a professora Shalimar, um dos momentos mais marcantes foi perceber a transformação na autoestima das idosas envolvidas. “Foi gratificante porque percebemos a autoestima delas melhorar. Elas puderam falar sobre seus conhecimentos e compartilhar isso em um livro. No dia do lançamento, vestiram a melhor roupa, conversaram muito e não queriam ir embora”, relembra.

Em Santo Antônio do Caiuá, as senhoras da comunidade são guardiãs de saberes que atravessam gerações (Foto/Arquivo Pessoal)

O projeto também reforça debates importantes sobre saúde pública e valorização da medicina tradicional. Desde 2006, o Sistema Único de Saúde (SUS) reconhece oficialmente práticas integrativas e o uso de plantas medicinais como parte das políticas nacionais de cuidado. Nesse contexto, iniciativas como o Bioessence fortalecem a preservação de saberes ancestrais e promovem a aproximação entre ciência, cultura e comunidade.

Ao levar o trabalho para um encontro nacional de ensino de ciências, os estudantes de Santo Antônio do Caiuá demonstram que a produção científica também pode florescer em pequenas cidades do interior — especialmente quando nasce do encontro entre memória, território e investigação.