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II WORKDHOP DO NAPI PARANÁ FAZ CIÊNCIA

Fieg 2026 premiou três Clubes de Ciências em Guarapuava

Por: Thiago de Oliveira

Os trabalhos vencedores foram a recriação de um bioma com plantio nativo e as dez caixas de abelhas-sem-ferrão

Uma estudante de cabelos castanhos, usando camiseta branca de manga longa e um crachá no pescoço, aponta para uma prancha ilustrada com diferentes espécies de abelhas durante a apresentação de um estande educativo. Sobre a mesa há materiais didáticos, potes com mel, pedaços de favo e um painel com a inscrição "Rede de Interação Ecológica". Ao fundo, uma decoração em formato de colmeia com uma grande abelha e favos amarelos reforça o tema da exposição. Outro estudante aparece parcialmente à esquerda da imagem, observando os materiais. O ambiente é um ginásio em espaço de feira científica.
Clube ‘Velozes e Curiosos’ apresenta projeto vencedor da categoria Clubes de Ciências (Foto/ Mathias Trindade)

A segunda edição da Feira Itinerante das Escolas do Núcleo Regional de Educação de Guarapuava, a Fieg, movimentou o Colégio Estadual Rui Barbosa em 3 de julho. Estudantes de escolas públicas apresentaram 55 projetos, distribuídos nos eixos de Robótica, Programação e Clubes de Ciências.

Em 2025, a primeira Fieg recebeu 98 inscrições e selecionou 45 projetos. Neste ano, a comissão organizadora teve que escolher entre 229 inscritos, mais do que o dobro. O salto reflete menos um esforço de divulgação e mais um amadurecimento do próprio formato, avaliam os professores Thalles Horn e Pablo Saldanha da Luz, idealizadores da feira.

“A comunidade abraçou a feira. É isso que a gente quer mostrar: cada escola apresenta a realidade da sua comunidade e de seus estudantes, provando que em todos os cantos do nosso núcleo existem alunos desenvolvendo projetos magníficos”, afirma Thalles.

“E até em relação à qualidade de projetos, nós conseguimos perceber a evolução e o amadurecimento do estudante em comparação com o ano passado”, complementa Pablo.

O tema deste ano foram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com os trabalhos organizados em torno de cinco eixos: Fome Zero e Agricultura Sustentável (ODS 2), Educação de Qualidade (ODS 4), Energia Acessível e Limpa (ODS 7), Indústria, Inovação e Infraestrutura (ODS 9) e Ação Contra a Mudança Global do Clima (ODS 13).

Ao final do dia, três projetos de Clubes de Ciências foram premiados. O primeiro lugar ficou com o Colégio Estadual Cristo Rei, com o projeto de recuperação da Mata Atlântica, do clube Velozes e Curiosos. A segunda e a terceira colocação foram para o Colégio Estadual de Educação em Tempo Integral Professor Pedro Carli, com os projetos “Abelhas-sem-ferrão e Educação Inovadora: da Realidade Virtual ao Modelo Didático de Colmeia” e “Ciclo Produtivo e Qualitativo: Do Manejo de Abelhas Sem Ferrão à Elaboração de Biocosméticos”.

ANO DA CONSOLIDAÇÃO

Thalles lembra que a primeira edição foi um projeto-piloto, montado em dois meses por uma comissão de quatro pessoas. “Foi um caos generalizado, a gente teve diversas dificuldades por ser a primeira vez”, admite. Desta vez, com uma comissão mais estruturada e quase um ano de antecedência, o resultado apareceu. Empresas locais se aproximaram por conta própria, sem que a organização precisasse procurá-las.

Thalles e Pablo, idealizadores da Fieg (Foto/ Mathias Trindade)

Um dos pilares da Fieg, segundo os professores, é o retorno que a organização dá aos estudantes depois da inscrição. Todo projeto recebe uma devolutiva da banca avaliadora, seja de aperfeiçoamento, de reconhecimento ou de reformulação, com mais de 20 dias de antecedência em relação à feira. É tempo suficiente para ajustar hipóteses, revisar dados e chegar ao dia da apresentação com o trabalho mais maduro. Projetos vencedores de 2025 já avançaram para feiras estaduais e nacionais, entre elas a Jornada Educatec, a FICiências e a Fecci, e dois deles seguem em processo de validação em universidades depois de premiações em São Paulo.

As bancas avaliadoras deste ano foram compostas por profissionais com experiência nas áreas de Clubes de Ciências, Robótica e Programação, em parceria com universidades e instituições de ensino superior. Os critérios contemplaram criatividade, inovação, complexidade técnica, relevância, impacto social e contribuição para os ODS. Cada projeto foi avaliado por no mínimo três avaliadores, com nota final calculada pela média aritmética das pontuações.

O VALOR DE VER O TRABALHO DO OUTRO

Para Elisa Aguayo, professora e uma das coordenadoras dos Clubes de Ciências na Unicentro, a feira resolve um problema que os clubes carregam ao longo do ano: o isolamento. “O estudante já vem fazendo suas atividades dentro dos clubes, muitas vezes isoladamente. Agora tem essa oportunidade de trocar ideias, compartilhar, treinar para as próximas feiras”, disse. Ela destacou o encontro entre projetos de temática parecida, como as pesquisas sobre abelhas apresentadas por escolas diferentes, como um dos pontos mais ricos da programação: estudantes que dificilmente teriam contato entre si passam a comparar métodos e resultados na mesma sala.

Elisa Aguayo acompanha apresentação de projeto do Clube Climatize-se, do Colégio Estadual Professor Pedro Carli (Foto/ Mathias Trindade)

O diretor do Rui Barbosa, Cleto Rudinei Chiquito, associou o evento ao modelo de tempo integral da escola anfitriã. “Hoje colocamos na prática um princípio da educação integral, que é o protagonismo. Os projetos demonstram isso”, afirmou.

Entre os demais trabalhos em exposição, o Clube de Ciências Ecotransformadores, do Colégio Estadual Vereador Heitor Rocha Kramer, mostrou o andamento de um projeto de rua sustentável no bairro Vila Colibri. A estudante Fernanda Ferreira Prestes, de 16 anos, contou que a proposta saiu do papel desde a última apresentação do clube. “Já temos as plantas para a gente já começar a plantar e também algumas mudanças no bairro, onde a gente já está implantando tudo bem certinho.”

Já o Colégio Estadual Professor Amarílio levou o “Corrente do Bem”, que une arte e sustentabilidade. Os estudantes coletam tampinhas de garrafa e plástico para montar obras de arte efêmeras, depois desmontadas e doadas a uma instituição de apoio a idosos, que troca o material por fraldas e produtos de higiene pessoal. “A gente pensou nessa questão da construção, um ciclo que vai servir para outras situações, outro contexto de reciclagem”, explicou o professor Doacir Domingos Filho, orientador do clube. Em paralelo, os alunos produzem um documentário sobre o próprio processo do grupo, que deve continuar mesmo depois do fim do ciclo letivo do clube.

Produção do Clube EcoCriativos (Foto/ Mathias Trindade)

O VENCEDOR: UMA MATA ATLÂNTICA DENTRO DO COLÉGIO

O primeiro lugar da categoria Clubes de Ciências ficou com o “Velozes e Curiosos”, do Colégio Estadual Cristo Rei, sob orientação da professora Crissiane Loyse Luz. O projeto propõe recriar, dentro da própria escola, uma rede de interação ecológica da Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta e também um dos mais degradados pela expansão urbana, o desmatamento e a fragmentação de áreas verdes.

“A gente vê que a Mata Atlântica diminuiu ao longo dos anos, e muitas redes de interação ecológica que são a base para a sobrevivência de um bioma foram afetadas. Espécies começaram a desaparecer, muitas extintas ou ameaçadas de extinção”, explica Crissiane. Segundo ela, o cenário urbano de fragmentação de áreas verdes para construção de bairros também se repete no entorno do Cristo Rei, colégio com pouco espaço verde diante da área construída.

Para reverter esse quadro, em pequena escala, os alunos plantaram no colégio espécies nativas como araçá, pitanga, ipê-amarelo, erva-mate e timbaúva, além de plantas de jardim com flores. Para fechar a rede ecológica, o clube montou um meliponário com dez caixas de abelhas nativas brasileiras sem ferrão, entre elas jataí, mandaçaia, mirim e tubuna, responsáveis pela polinização das mudas plantadas. A expectativa do grupo é que a iniciativa também contribua para a produção e dispersão de sementes por animais atraídos para a área.

Estudantes do Clube Velozes e Curiosos durante apresentação na Fieg 2026 (Foto/ Mathias Trindade)

“O projeto acabou reacendendo, na comunidade escolar, essa vontade de trabalhar com a natureza, com os seres vivos, e trazer mais verde para o colégio, que é uma coisa que não tinha muito”, diz a professora. Segundo ela, o trabalho também tem função de sensibilização: divulgar espécies nativas da região e explicar a diferença entre as abelhas sem ferrão e a abelha-europeia, mais conhecida do público. A partir do projeto, os estudantes iniciaram um mapeamento florístico do bairro, reunindo informações sobre plantas que ajudam na conservação das abelhas e que podem ter uso medicinal ou alimentício para moradores.

Manter as colmeias vivas em Guarapuava, porém, não é trivial. “Ano passado a gente perdeu todas as abelhas”, conta Crissiane. Neste ano, o clube desenvolveu um sistema de aquecimento com placas de cimento e resistores instalado sob as colmeias, além de suplementar a alimentação das abelhas com bombons proteicos de pólen e um xarope de água, açúcar mascavo e limão. A medida tem sustentado as colônias mesmo em dias de sensação térmica de -2°C. “Elas não morreram até agora”, diz a professora.

Na feira, o grupo apresentou o projeto associado à emergência climática, dialogando com os ODS 4 e 13 e com o eixo de vida terrestre. Para Crissiane, o resultado da premiação pertence à escola como um todo. “É um trabalho coletivo que a direção assumiu junto, os alunos da escola também, os funcionários da escola participam também do projeto. Então eu acho que é um prêmio que vai para a coletividade.”

O QUE VEM DEPOIS DA FIEG

Os projetos que mais se destacarem seguem para o Espaço Maker do NRE, onde recebem mentoria e acompanhamento técnico para virar soluções mais estruturadas. A aposta dos organizadores é que o modelo passe a ser replicado em outros núcleos regionais. “A gente tem uma comunidade científica muito boa, professores muito bons e, sobretudo, nossa joia, que são os estudantes”, resumiu Thalles.

A escolha do Colégio Estadual Rui Barbosa como sede também marcou uma mudança em relação à primeira edição, sediada por um colégio cívico-militar. A organização optou desta vez por um colégio de tempo integral, buscando dar visibilidade a diferentes modelos de oferta da rede estadual. A programação seguiu das 8h às 16h, com exposição e avaliação dos projetos pela manhã e, à tarde, a cerimônia de premiação.

Abertura da II Fieg (Foto/Thiago de Oliveira)

A Fieg é organizada em parceria com a Rede de Clubes de Ciências do NRE de Guarapuava, que reúne hoje doze clubes distribuídos por Guarapuava, Pinhão, Foz do Jordão e Candói, além de um Clube Maker em escola indígena de Turvo e do Clube das Meninas, voltado à participação feminina em ciência, tecnologia e inovação.